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Sérgio Dávila | Correspondente de Guerra

Sérgio Dávila | Correspondente de Guerra

Este é um dos perfis escritos por Diogo Schelp no livro “Correspondente de Guerra“, publicado pela Editora Contexto

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Correspondente de GuerraAntes de se tornar editor-executivo da Folha de S.Paulo, o jornalista Sérgio Dávila foi correspondente do jornal nos Estados Unidos durante dez anos, passando por Nova York, Washington D.C. e Califórnia. Nessa função, testemunhou e relatou, em primeira mão, o ato de guerra que mudou o rumo do incipiente século XXI: os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. “Minha mulher e eu fomos acordados por uma ligação da redação em São Paulo, informando-nos que um avião monomotor havia se chocado contra uma das torres do World Trade Center”, conta Sérgio, que é casado com Teté Ribeiro, jornalista e filha de José Hamilton Ribeiro, que cobriu a Guerra do Vietnã pela revista Realidade. O apartamento do casal ficava a 20 quadras do WTC. Ambos partiram a pé, no fluxo contrário das pessoas que fugiam da tragédia, e foram descobrindo no caminho, a partir dos relatos esparsos que recebiam, que não se tratava de um monomotor, e sim de um avião comercial. Dois deles, não apenas um, haviam se chocado contra os prédios. Viram, então, uma das torres desabando, e logo a segunda. A poeira que se levantou dos escombros deixou Teté com dificuldades de respiração, e ela teve que ser atendida imediatamente, na rua, por paramédicos. Sérgio foi em frente, conseguiu uma máscara de proteção com bombeiros e, talvez por ter sido confundido com um paramédico, conseguiu ir além da barreira que a polícia formou, chegando muito próximo ao que mais tarde viria a ser chamado de Marco Zero, o local onde antes ficavam, imponentes, as Torres Gêmeas. Sérgio acompanhou o trabalho de resgate de perto, viu o corpo de um bombeiro sem a cabeça sendo levado de maca e sentiu o que acabou definindo, na reportagem que saiu no jornal do dia seguinte, como o cheiro da tragédia: um odor doce de queimado. Ele passou esse relato de um telefone público, em uma ligação a cobrar para a redação no Brasil, mais tarde complementado de casa por escrito.

O 11 de Setembro foi a primeira cobertura de guerra de Sérgio Dávila. Menos de dois anos depois, foi convidado por Otavio Frias Filho para cobrir um novo conflito, a Guerra do Iraque, apresentado pelo então presidente americano George W. Bush como uma das respostas de seu país àquele ataque ao coração da superpotência. Sérgio e o fotógrafo Juca Varella chegaram a Bagdá no dia 19 de março de 2003, dentro do prazo de dois dias dado por Bush para que o ditador Saddam Hussein deixasse o poder e o Iraque. Eram os únicos representantes da imprensa brasileira na capital iraquiana durante a fase de bombardeios. A guerra durou 46 dias. O trabalho da dupla da Folha no país estendeu-se por 30 dias. A experiência de Sérgio e Juca demonstrou que a Guerra do Iraque foi uma arapuca para jornalistas desde o início, na fase de derrubada do regime, e não apenas no longo e violento período posterior, de ocupação militar.

“Havia dois mil jornalistas em Bagdá. Quando Bush deu o ultimato, quase todos foram embora. Sobraram 160, entre os quais eu e Juca. Desse total, 16 morreram. A letalidade entre os jornalistas foi muito maior do que a da coalizão liderada pelos Estados Unidos e até a do exército iraquiano.”

Ele conta que alguns tiveram o azar de estar no lugar errado na hora errada e acabaram sendo atingidos em bombardeios. E houve o episódio do Hotel Palestine, onde a maioria dos profissionais de imprensa, inclusive a dupla brasileira, estava alojada. “Era dado como certo, entre os colegas, que a CNN passava a localização do prédio do hotel para não ser bombardeado pelas forças americanas. Quando as tropas da coalizão entraram na cidade, porém, esse acordo aparentemente se perdeu.” No dia 8 de abril, a lente de um cinegrafista na varanda do décimo quinto andar do hotel foi confundida com o cano de um fuzil ou de um lançador de granadas por um soldado americano dentro de um tanque, que reagiu disparando contra o que considerava um alvo legítimo. Dois jornalistas morreram com o canhonaço. Os brasileiros estavam alojados apenas quatro andares abaixo, mas não se encontravam no hotel no momento do ataque. Mais cedo, no mesmo dia, a sucursal da TV árabe Al Jazeera em Bagdá havia sido bombardeada, segundo as forças americanas por engano, matando um jornalista palestino. “Até aqui, apesar das dúvidas geradas por esses dois episódios, nós jornalistas ainda estávamos enfrentando os riscos inerentes a uma zona de conflito.”

SAO PAULO, SP, BRASIL, 30-07-2013 16h23: Fotos de Sergio Davila. Diretor Executivo da Folha de S.Paulo. (Foto Eduardo Knapp/Folhapress.ESPECIAIS)
Foto Eduardo Knapp/Folhapress.

Após a queda do regime, a capital viveu um período de caos. Com o vácuo de poder, os cidadãos saíam a saquear tudo o que encontravam pela frente, principalmente museus e prédios governamentais. As condições de segurança para os jornalistas se deterioraram rapidamente, pois as opções de saque começaram a se esgotar. “De repente, deu-se um estalo coletivo na turma de saqueadores: eles se deram conta de que os jornalistas eram alvos fáceis e lucrativos, pois tínhamos dinheiro, passaporte e equipamentos”, diz Sérgio. Em um dos assaltos, que teve como vítima uma equipe da RTP, de Portugal, o repórter Carlos Fino e seu cinegrafista quase foram linchados pelos saqueadores. “Acredito que esses roubos representaram o princípio do fenômeno dos sequestros de jornalistas, que veio a ser uma atividade muito rentável no Iraque nos anos seguintes. A diferença é que, naquele momento, éramos vistos apenas como cofres ambulantes. Os sequestros com motivação ideológica vieram depois.” Sérgio identifica na Guerra da Bósnia, dez anos antes, o ponto de virada para a transformação dos jornalistas em alvos de um conflito. “O meu sogro, José Hamilton Ribeiro, conta que, para cobrir a Guerra do Vietnã, teve de usar um uniforme de tenente fornecido pelo exército americano. Era normal, até aquele momento, ter correspondentes embedded, ‘embutidos’, numa força militar regular. O inimigo não conseguia distingui-los dos verdadeiros soldados. Quanto aos fotojornalistas, apesar de também usarem fardas, poucos foram alvejados, talvez por serem identificáveis por suas câmeras.

Na Guerra da Bósnia, os combatentes sérvios começaram a mirar deliberadamente nos jornalistas, porque os consideravam parte do esforço de guerra da Otan, a organização das forças ocidentais. “Esse fenômeno foi se consolidando e estamos vivendo o auge agora, com os grupos radicais que dividem as pessoas em fiéis ou infiéis”, diz Sérgio. Ele afirma que dificilmente aceitaria trabalhar nessas condições. “Atuar numa área dominada pelo Estado Islâmico, por exemplo, é algo que eu não faria. É complicado ir para um lugar onde o jornalista é alvo. Não quero ser preso e degolado.” A Folha de S.Paulo tem como política deixar os profissionais completamente à vontade para recusar uma missão de risco.