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Por uma cultura verdadeiramente inclusiva | Jaime Pinsky

A sensação de que o novo governo está preocupado com a cultura, seja recriando um ministério específico para ela, seja buscando responsáveis comprometidos com essa manifestação fundamental da vida em sociedade, nos anima a trazer algumas reflexões apresentadas como colaboração.

Cultura é uma palavra utilizada em muitos sentidos. Pode ser relacionada com tudo que a humanidade produziu desde que passou a viver socialmente organizada neste nosso planeta itinerante. Nesse sentido, poderíamos dizer, como os arqueólogos e antropólogos, que cultura é toda a produção material ou imaterial do gênero humano. Isso incluiria desde a forma de um agrupamento humano construir uma casa, plantar uma raiz, pintar o corpo, tratar os anciãos, até combater inimigos e elaborar lendas. Em decorrência dessa visão, pode-se afirmar que conhecer a cultura de um grupo implica dar conta tanto das coisas que consideramos belas e positivas, como daquelas que não consideramos assim.

Práticas cotidianas, hábitos culturais como tratar mal os filhos ou os subalternos, surrar a esposa (ou tratá-la como inferior), construir cidades feias, burlar leis, buscar vantagens indevidas em cargos públicos e sonegar impostos na iniciativa privada, dirigir alcoolizado sem sentir culpa, desrespeitar faixas de pedestres, ser arrogante (quando poderoso) e dissimulado (quando buscando o poder), são características culturais frequentemente atribuídas aos brasileiros, por exemplo. Fazem parte da nossa cultura?

Num sentido mais estreito, podemos nos referir à cultura como um patrimônio da humanidade que nós, como seres humanos, temos o direito de usufruir. Aí não deveria haver fronteiras nacionais: podemos falar, por exemplo, da filosofia grega, da ética igualitária dos profetas hebreus, do direito romano, das catedrais medievais, das pinturas e esculturas de Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael, da música de Bach e Beethoven, do pensamento de Marx (querendo entender a sociedade), de Freud (buscando entender o interior das pessoas), de Einstein (tentando explicar o universo), do cinema de Charlie Chaplin, e por aí afora. E podemos falar do samba brasileiro e do tango argentino, do americano Philip Roth e do russo Dostoievsky, do talento de Pelé, Puskas e Messi.

Nosso sonho seria uma sociedade em que todos tenham o direito de ter contato com obras fundamentais da cultura humana, produções do gênio humano que justificam nossa presença neste planeta. Esse contato provavelmente não faria com que todos usufruíssem igualmente de tudo o que o gênio humano já produziu. Somos diferentes.

Por uma cultura verdadeiramente inclusiva | Jaime Pinsky

Alguns gostam mais disso, outros daquilo. O problema é que, em nossa sociedade desigual, a desigualdade afeta também as oportunidades de consumir cultura. Cria-se, então, um mito, segundo o qual a capacidade de fruir, apreciar coisas sofisticadas culturalmente (música clássica é um exemplo frequentemente utilizado) é coisa de gente rica. Que bons livros não são para o povo. Que “gente simples” não gosta de pintores geniais. O problema fica mais sério quando secretários e ministros da cultura começam a acreditar nessas bobagens.

Corro o risco de apostar que em qualquer classe social encontraremos gente que gosta e que não gosta desta ou daquela música, ou pintura, ou livro, ou dança. Em representantes de qualquer raça, a mesma coisa.

O que cabe a gestores públicos não é restringir a oferta cultural a produtos de baixa qualidade, pressupondo a incapacidade das pessoas em consumir cultura de bom nível, mas apostar no povo e fazer com que todos tenham a oportunidade de estabelecer bom contato com o que de melhor o ser humano tem produzido.

Claro que aqui é necessário registrar que produção cultural de qualidade não pode ser vista apenas como aquilo que chegou da Europa, mas também o que se produziu no continente americano há séculos, do que veio da África, transportado por aqueles que foram trazidos contra sua vontade. Da mesma forma que seria idiota recusar um contato maior com a cultura dos povos que aqui vivem há milhares de anos, ou dos africanos, também não faz sentido abandonar elementos formativos da cultura brasileira vindos de países europeus e mesmo asiáticos. Cabe aos gestores culturais ter a sabedoria de não jogar fora o bebê com a água do banho, não negando algumas coisas para afirmar outras.

Lembro-me sempre da revolução cultural promovida pelo maoísmo na China que chegou a proibir compositores como Mozart, ou do nazismo que abominava qualquer autor, compositor e mesmo cientista judeus, o que levou até um gênio como Einstein a emigrar para os EUA. Somar, não dividir, senhoras e senhores, é o caminho.


Jaime Pinsky é historiador e editor. Completou sua pós-graduação na USP, onde também obteve os títulos de doutor e livre-docente. Foi professor na Unesp, na própria USP e na Unicamp, onde foi efetivado como professor adjunto e professor titular. Participa de congressos, profere palestras e desenvolve cursos. Atuou nos EUA, no México, em Porto Rico, em Cuba, na França, em Israel, e nas principais instituições universitárias brasileiras, do Acre ao Rio Grande do Sul. Criou e dirigiu as revistas de Ciências Sociais, Debate & Crítica e Contexto. Escreve regularmente no Correio Braziliense e, eventualmente, em outros jornais e revistas.

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