Fechar
O pavilhão dos padres: Dachau, 1938-1945 | Guillaume Zeller

O pavilhão dos padres: Dachau, 1938-1945 | Guillaume Zeller

Lembrai-vos dos presos como se estivésseis presos com eles. (Hebreus 13,3)


Pawel, Alois e Boleslaw Prabucki são irmãos. Nascidos em Iwiczno, na Polônia, em 1893, 1896 e 1902, os três decidem consagrar suas vidas a Deus e se tornam sacerdotes da diocese de Chelmno. Nessa região, que a Alemanha e a Polônia disputam há muito tempo, Pawel é pároco de Gostkowo; Alois, de Gronowo; e o mais novo, vigário de Mokre. No outono de 1939, pouco após o exército do Terceiro Reich vencer a Polônia, eles são presos pelos nazistas, que desejam acabar com as elites polonesas, e enviados para o campo de concentração de Oranienburg-Sachsenhausen, a norte de Berlim. Em 14 de dezembro de 1940, são transferidos para Dachau, o campo-protótipo do sistema SS, implantado no coração da Baviera. Pawel, Alois e Boleslaw recebem as matrículas 22661, 22686 e 22685. Após meses de sofrimentos intensos, faminto, esgotado, Alois é o primeiro a falecer, no dia 17 de julho de 1942, e a desaparecer nas entranhas do crematório. Menos de um mês depois, em 14 de agosto, Boleslaw é selecionado para ir para as câmaras de gás no Castelo de Hartheim, o grande centro de eutanásia instalado na Áustria. Ao vê-lo partir, Pawel, atordoado, faz o sinal da cruz na testa do irmão, pede-lhe que abrace seus pais e Alois nos céus e diz que logo estará com eles. Boleslaw desaparece. Dezesseis dias depois, em 30 de agosto, Pawel cumpre sua promessa e sucumbe também em Dachau.

Os irmãos Prabucki estão entre os 2.579 sacerdotes, religiosos e seminaristas católicos, oriundos do Reich e de toda a Europa ocupada, confinados pelos nazistas no campo de Dachau, de 1938 a 1945. Não se conhece a história desses homens, uma dentre tantas do projeto global dos campos de concentração. Além disso, ela é ofuscada por duas grandes figuras do martirológio católico, assassinadas em Auschwitz: o franciscano Maximilien Kolbe, executado em 14 de agosto de 1941, com uma injeção de fenol, após vários dias sem receber comida, e a carmelita Teresa Benedita da Cruz – nascida Edith Stein, judia convertida, ex-assistente de Edmund Husserl –, morta na câmara de gás de Birkenau, em 9 de agosto de 1942. Ambos foram canonizados.

No entanto, quem sabe que, dos trinta pavilhões de Dachau, dois a três são permanentemente ocupados por membros da Igreja de 1940 a 1945? Elites polonesas, opositores políticos alemães, austríacos ou tchecoslovacos, resistentes belgas, holandeses, franceses, luxemburgueses ou italianos… De todas as nações e de todas as idades, sacerdotes são aprisionados atrás dos arames farpados de Dachau, em decorrência de um acordo forçado pela diplomacia do Vaticano ao Reich. Durante oito anos, as tragédias e os gestos magníficos pontuam o itinerário do clero de Dachau, da surpreendente marcha forçada da “Semana Santa” de 1942 ao heroico enclausuramento voluntário dos sacerdotes nos pavilhões dos moribundos com tifo, passando pela perturbadora ordenação clandestina de um jovem diácono alemão tuberculoso por um bispo francês, simpatizante do marechal Pétain, homenageado, no entanto, com o título de “Justo entre as Nações” no memorial do Yad Vashem, em Israel. Jamais, ao longo da história, nem mesmo nos piores momentos do Terror francês ou da perseguição comunista, tantos sacerdotes, religiosos e seminaristas foram assassinados em um espaço tão restrito: 1.034 deixaram sua vida lá.

Para além dos percursos pessoais, a história dos padres católicos de Dachau – e de 141 religiosos de outras confissões, protestantes e ortodoxos na maioria – lança uma nova luz sobre o sistema hitlerista dos campos de concentração, sobre o anticristianismo intrínseco do nazismo e, para além do estrito campo histórico, sobre a fé e o comprometimento espiritual, ultrapassando suas trajetórias pessoais. O que a experiência dos religiosos presos em Dachau tem em comum com a de seus companheiros leigos? Quais foram seus privilégios e sofrimentos específicos? A motivação das perseguições nazistas contra o clero é ideológica ou política? A fé e o envolvimento religioso dos sacerdotes os prepararam para a desumanização empreendida nos campos ou os fragilizaram? Suas convicções morais, moldadas pelo Evangelho e pela tradição da Igreja, resistiram à perversão dos valores imposta pelos SS? A experiência por que passaram os sacerdotes de Dachau produziu frutos somente na instituição eclesiástica, ou também fora dela, na Igreja como um todo? Resgatar essa história singular, fragmento do drama dos campos de concentração, permite oferecer respostas a essas diferentes perguntas.


Guillaume Zeller é jornalista, formado em História e Comunicação na Sciences Po. É diretor no Canal+, rede de televisão francesa, e foi diretor na iTélé, também um canal de televisão da França, além de redator-chefe na DirectMatin.fr. É autor de Oran, 5 juillet 1962, sobre a guerra na Argélia, e coautor de Un prêtre à la guerre.