Fechar
O cinema foi ensinar na sala de aula| Rubens Marchioni

O cinema foi ensinar na sala de aula| Rubens Marchioni

APRENDIZAGEM. TALVEZ VOCÊ já tenha visto esse filme. Ele certamente tem a participação de um educador contemporâneo. Gente cuja arte consiste em criar novos cenários no contexto da Educação. No trabalho, esses profissionais não lidam com a ficção. Seu tema é a realidade desafiante da sala de aula. Este é o ambiente em que o protagonista é o professor, cuja missão é vencer o monstro terrível da ignorância num tempo em que tantas e tamanhas lutas são exigidas de quem se dispõe a ensinar. É sobre transmitir conhecimentos por meio de recursos do cinema que desejo iniciar esta conversa.

Na minha pesquisa, encontrei muitos sites falando da importância de se usar filmes na sala de aula. O recurso seria, segundo especialistas, um meio poderoso de envolver o aluno, sempre em busca de novas formas de aprendizado.

O cinema sabe como atender a essa demanda. Uma das suas características, como linguagem, é expressar ideias, opiniões e sensações, por meio de sons e imagens em movimento. A conexão se estabelece sem demora. Pudera, nosso estudante vive num mundo dinâmico, e o ensino ficou sem opção: nessa nação chamada Escola só lhe resta falar o mesmo idioma para ser compreendido e aceito. Nesse sentido, professor e aluno, todos são convidados para a busca de novos aprendizados. Lembrando Eric Hoffer, escritor e sociólogo norte-americano, “Em tempos de mudança, os Aprendizes herdarão a Terra enquanto os Conhecedores se encontrarão bem equipados para lidar com um mundo que não existe mais.” Aprender é o nome do jogo, e a nova sessão começa agora.
Hoffer pinta um cenário ameaçador, que pode ser evitado, por exemplo, com o auxílio do cinema, recurso pedagógico que cria novas possibilidades de reflexão e aprendizado.

Mas você já percebeu uma coisa? É sempre um ato de criatividade. É sempre a prática de se perguntar “E se?”, “Por que não?”, e se manter aberto ao que pode surgir no horizonte, sempre de maneira surpreendente. “E se eu juntasse uma sala de aula e um filme? E se, em alguns momentos, eu substituísse o quadro negro por uma tela? Palavras e números por imagens e sons em movimento?”

Quando você faz esse exercício – “E se?”, “Por que não?” –, descobre uma infinidade de possibilidades. Uma a uma, todas estão escondidas, esperando pelo momento da revelação. Foi assim que surgiu o indispensável liquidificador, por exemplo. Ele é o resultado da junção de um motor e uma parte da batedeira de bolo. Isso não é genial?

O desafio da educação começa primeiro em casa. É preciso aprender sempre mais. É indispensável transformar a criatividade numa prática constante. Ela produz respostas que você sempre procurou, mas nunca imaginou que existisse. Graças a essa iluminação, sua história pode tomar um rumo completamente novo. Mas você aceita lidar com novas propostas? Consegue ficar frente a frente com elas, carregando-as para dentro da sua vida?

O novo tem um jeito inesperado. O inédito assusta. Quando chega, ele reivindica o seu espaço e quer saber onde será instalado. Tudo bem, você pode ignorá-lo. Mas não terá como fugir por muito tempo. Por quê? Porque ele sempre quer transformar sua vida, a começar pela dimensão pessoal. Quem o vê não tem como negá-lo, ainda que elabore a maior falácia de que se tem notícia e a ofereça como raciocínio válido.

Onde começa o processo criativo da educação? É papel da família ser o cenário que acolhe os novos aprendizados. Porque família é escola. Família é lugar de crescimento. Afinal, esse é o ambiente em que se vive a experiência mais profunda de liberdade para o estabelecimento da comunicação na sua forma espontânea e original. E isso é fundamental para o desenvolvimento da autoconfiança.

A família é o primeiro espaço de treinamento para a formação do estudante. Ela o prepara e educa na direção de uma convivência produtiva no ambiente escolar, que vem logo em seguida.

A família é a primeira e significativa escola de socialização. Ela prepara a criança para a vivência num contexto de hierarquia, de divisão ética do espaço público, de convívio com a polis. Nesse cenário, onde o bem-estar coletivo conta acima de tudo, a família capacita para a vida em sociedade. Ensina a respeitar essas regras, não como exercício de subserviência, mas como prática livre para garantir um clima de paz estrutural.

A aprendizagem, tomada como valor, tem força para revolucionar também a experiência profissional. Isso se torna ainda mais forte, quando a pessoa, preparada pelo ambiente escolar, desenvolve seu potencial em três dimensões igualmente fundamentais: conhecimento [saber], habilidade [saber fazer] e atitude [querer fazer]. Sempre com vistas à coletividade – a rua, o bairro, a cidade, a nação, o mundo, enfim.

A continuidade desse processo, é claro, requer uma postura do ambiente corporativo, que deve ser capaz de abrir espaço para todo esse aprendizado. É dele a tarefa de valorizar a busca e o encontro, às vezes conquistado pelo exercício da criatividade e sua tradução para a prática cotidiana. “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria”, disse o sábio educador Paulo Freire.

Aprender. Aprender de maneira criativa. Viver na polis e trabalhar em função do seu desenvolvimento, para que este espaço se torne cada vez mais justo e igualitário. Ora, trabalhar em função da polis é fazer política. Uma postura nem sempre partidária, apenas resultado de um senso crítico suficiente para lembrar que esse espaço é de todos. Por isso, ninguém pode ser excluído daquilo que o crescimento pessoal, acadêmico, profissional e religioso pode trazer como contribuição para que os melhores resultados sejam atingidos.

A gente não aprende apenas para saber – a saga da vida escolar tem metas muito mais ambiciosas. Acima de tudo, a gente aprende para construir. Construir um mundo que se aproxime, o quanto possível, da experiência de paraíso, projeto original que orientou a criação do planeta.

Parece utópico. É claro que parece. Mas é a utopia que nos move para frente. Ela ensina que é preciso ser criativo, ensaiar novos caminhos de aprendizado e promover a cultura para construir esse mundo que vive em nossos sonhos, esperando pelo momento da revelação.

Sejamos criativos, portanto. É urgente. Porque nós precisamos de um novo tempo. ₪

Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo, blogueiro e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Pela Contexto é autor de Escrita criativa: da ideia ao texto.  https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao / e-mail: [email protected]