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O Cerco de Leningrado – 900 dias de resistência
36 03/08/1942 Leningradians cleaning a street after the first winter in the besieged city. Vsevolod Tarasevich/RIA Novosti

O Cerco de Leningrado – 900 dias de resistência

 

Jenia [Eugenia, sua irmã] morreu em 28 de dezembro, ao meio-dia [1941].
Vovó morreu em 25 de janeiro, às 3 horas da tarde [1942].
Lioka [Leonid, seu irmão] morreu em 17 de março, às 5 horas da manhã [1942].
Tio Vassia morreu em 13 de abril, às 2 horas da manhã [1942].
Tio Liocha, 10 de maio, às 4 horas da tarde [1942].
Mamãe, 13 de maio, às 7h30 da manhã [1942].
Os Savitchev [sua família] morreram.
Todo mundo morreu.
Tânia está sozinha.

A menina de 12 anos, Tatiana Nikolaievna Savitcheva, “Tânia”, que escreve esse atroz inventário, simboliza, de algum modo, a cidade de Leningrado sob o cerco. Ela é a caçula de uma família de cinco filhos. Seu pai morreu antes do início da guerra e sua família, os Savitchev, estava na cidade sitiada e sofreu o bloqueio.

Tânia escreve numa caderneta que pertence a sua irmã mais velha, Nina. De suas nove páginas, seis são dedicadas à morte de seus parentes.

Nem todos morreram na família. A irmã de Tânia, Nina, não estava em Leningrado, e por isso escapou da fome. Foi ela que, depois da guerra, voltando para casa, encontrou a caderneta de Tânia em seu apartamento da ilha Vassilevski. Um de seus irmãos, Mikhail, que estava em combate, também sobreviveu.

Tânia foi mandada, durante o verão, para a região de Gorki (Nijni Novgorod), em companhia de 140 crianças de Leningrado, graças à “Estrada da vida”. Na descida do trem, os habitantes da pequena localidade de Chatki que lá estavam para acolhê-los pensaram que as crianças estavam mortas, tal a magreza em que se encontravam. Quanto a Tânia, não podia se levantar.

A maior parte dessas crianças, entretanto, sobreviveu. Elas voltaram a andar; algumas chegavam a comer capim, para espanto dos habitantes, mas era
impossível impedi-las.

Os médicos não conseguiram salvar Tânia, que morreu em 1º de julho de 1944. Sua sepultura se encontra em Chatki, onde faleceu, a mais de 1.000 KM de Leningrado.

A caderneta de Tânia, hoje conservada no Museu de História de Leningrado, foi apresentada no processo de Nuremberg. Com suas palavras simples, lançadas como pequenas pedras de desespero, simboliza a tragédia sofrida por milhões de leningradenses.


O trecho acima é o início do livro O Cerco de Leningrado.

O-CERCO-DE-LENINGRADO_CAPA_WEBPor 900 dias os habitantes da cidade de Leningrado – atual São Petersburgo – viveram cercados por tropas nazistas. Um milhão de russos morreram na ocasião, dos quais 800 mil em consequência da fome. Contudo, esse terrível episódio da Segunda Guerra Mundial é frequentemente deixado em segundo plano em nome de outros embates. Com este livro, além do ponto de vista humano, a batalha de Leningrado é estudada em termos estratégicos, políticos e até simbólicos. Em pleno século XX desenrolou-se um cerco digno da era medieval. A fome, a sede, o fogo também foram inimigos temíveis. Pesquisando nos diários íntimos, nas cartas, nos arquivos, o historiador Pierre Vallaud revive toda a dimensão trágica dessa sangrenta aventura humana. Ele destaca o heroísmo dos cidadãos, a ignomínia de alguns, o esgotamento dos soldados nos dois lados. Leningrado não será a mesma para os leitores deste livro.

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