O Império Romano não apenas nos legou um conjunto de ideias sobre o que é um império, como também influenciou a forma como muitos impérios subsequentes foram concebidos e administrados. Nossa própria palavra “império” deriva de imperium, termo latino que significava o governo pela força, o poder discricionário, o comando militar. Com a conquista romana, o termo passou também a designar a dominação do povo romano sobre outros povos e, num sentido mais concreto, a extensão territorial dessa mesma dominação. “Imperador” é outra palavra que deriva de vocabulário latino: imperator era um termo que designava, de início, o comandante militar, o general, mas que, com a ascensão ao poder de um governante supremo ao final das guerras civis do século I a.C., assumiu o nosso sentido de soberano de um império. Desde então, imperium passou também a designar o governo imperial, o Império na qualidade de regime. Disso resulta uma ambiguidade que se repete quando nos referimos a outros impérios na História, como o Império Napoleônico, designando a um só tempo um domínio sobre povos ou territórios e uma forma de governo centrada na figura do imperador. O impacto dessa terminologia na nossa concepção de império e o fato de que outros impérios posteriores tivessem se constituído inspirando-se no Império Romano não devem, no entanto, nos fazer esquecer as especificidades do império dos romanos.
Ao contrário do que imaginamos, o Império Romano não está no topo da lista dos maiores impérios da História, embora certamente figure entre os dez maiores impérios anteriores a 1500 d.C. Segundo um levantamento feito pelo historiador Carlos Noreña, com seus 5 milhões de quilômetros quadrados em sua máxima extensão, em 117 d.C., o Império Romano ocupa apenas a sexta posição entre os impérios pré-modernos (o maior deles foi o Império Mongol, que, em seu apogeu, em 1270 d.C., abrangia uma área de 24 milhões de quilômetros quadrados). Se olharmos para a proporção da população mundial vivendo em cada império em seu apogeu, a diferença é menor. Em meados do século II d.C., cerca de 30% da população do planeta vivia sob domínio romano, o que o coloca em quarto lugar, não muito atrás do Império Mongol (31%) e dos impérios chineses das dinastias Han (32%) e Song (33%). Contudo, em termos de duração, o Império Romano é certamente o mais longevo dos impérios anteriores a 1500. Se contarmos a partir do fim da Primeira Guerra Púnica, em 241 a.C., que marca o início da expansão ultramarina romana, até o fim, em 565 d.C., do reinado de Justiniano, último imperador a tentar restabelecer o controle romano sobre todo o Mediterrâneo, a duração total do Império Romano ultrapassa 800 anos. Mesmo se tomarmos como data final a morte de Teodósio I, em 395 d.C., quando o poder imperial foi definitivamente dividido entre dois governantes com suas respectivas cortes, ainda assim são impressionantes seis séculos de história. O único império comparável é o Império Chinês da dinastia Han, que durou quatro séculos.

Surgido da expansão de uma aliança de cidades itálicas, liderada pela mais poderosa delas, em um contexto de intensas rivalidades pela hegemonia no Mediterrâneo, o Império Romano pode ser visto como o resultado da transformação gradual de um império de conquista em um vasto Estado tributário. A ordem imperial, assim constituída, criou e reproduziu desigualdades, hierarquias e assimetrias mediante o uso tácito ou explícito da violência organizada e do acesso desigual a recursos materiais e financeiros, canalizados para o centro, primeiramente pelo saque e, depois, pela arrecadação regular de tributos. No entanto, o poder do Império Romano jamais se estendeu de maneira homogênea por todo o seu território e, ao longo de toda a sua existência, ele foi sempre marcado por uma grande diversidade social, política e cultural. Sem contar com o mesmo aparato burocrático dos Estados contemporâneos, o Império Romano se assemelhava mais a uma rede de cidades, bases militares, estradas e portos cercada, até a época de Trajano (imperador de 98 a 117 d.C.), por uma série de reinos dependentes. Por isso mesmo, o exercício efetivo do poder imperial dependia sempre da sistemática colaboração das elites locais, que eram responsáveis por grande parte da administração, pela manutenção da lei e da ordem, bem como pela arrecadação de impostos. Esse, mais uma vez, não era um atributo exclusivo do Império Romano. A estreita colaboração entre a corte imperial e os agentes locais foi também uma característica recorrente de várias dinastias imperiais chinesas. O que o Império Romano tem de mais específico é o fato de ter-se constituído a partir de uma cidade-Estado, além de ter construído suas instituições a partir das tradições cívicas republicanas. Foi isso que fez com que o imperador fosse sempre concebido como um mandatário da coletividade, e que a cidadania se constituísse como o principal meio de obtenção da lealdade e de integração das elites locais e de uma parcela cada vez maior das populações subjugadas, até sua extensão a todos os habitantes livres do império em 212 d.C.
Entender a construção dessas instituições e os mecanismos que levaram à formação, à manutenção, à adaptação e, finalmente, à dissolução do poderio romano é, sem dúvida, importante, e este livro se ocupará dessas questões. Mas para compreender o que foi o Império Romano é preciso também levar em conta o que significava viver em um império. A História do Império Romano foi durante muito tempo escrita apenas a partir do ângulo constitucional ou construída como uma sequência de biografias e governos dos imperadores, o que deixava de lado a maioria da população e relegava as regiões conquistadas à margem da história efetiva. Na segunda metade do século XX, a ênfase no Império Romano como uma comunidade de cidades e a atenção dada aos processos de integração do Mediterrâneo resultaram em uma visão menos restrita. Contudo, essa ênfase no multiculturalismo, na coexistência étnica e religiosa e na incorporação dos povos subjugados nas estruturas do império levou os historiadores, muitas vezes, a minimizarem a violência envolvida na imposição e na perpetuação do domínio romano, nos deslocamentos forçados de populações, na escravização em massa ou na perda de diversidade epistêmica. Ainda no século XXI, muitas Histórias do Império Romano ou mesmo as Histórias gerais dos impérios partem de uma perspectiva de cima para baixo e se preocupam mais em descrever os sistemas de poder, as culturas do poder e as hierarquias sociais do que em explorar como diferentes grupos experienciaram o império. O que falta é precisamente esse foco ampliado e, em especial, na vivência dos grupos mais subalternizados e afastados do poder, como as mulheres, as crianças, os pobres urbanos, os camponeses, os escravizados.
O Império Romano ainda tem muito a nos dizer. Voltamos a ele não apenas pelo impacto em nossa própria história ou por suas representações constantes em filmes, séries, quadrinhos e jogos, mas também porque ele nos ajuda a refletir sobre questões contemporâneas. Compreender a trajetória desse império nos permite questionar criticamente os usos de seu passado no presente, sobretudo quando tais apropriações reforçam desigualdades e injustiças. No entanto, para desconstruir visões excludentes sobre o Império Romano, é preciso mais do que simplesmente contestar seus abusos. Para que essa História se torne de fato libertadora, é necessário considerar as experiências e as aspirações de grupos historicamente silenciados e romper com a ideia de que o passado só nos interessa pelo que nos legou. Isso não significa, evidentemente, negar a relevância das produções culturais romanas e seu impacto na posteridade, mas lembrar, como o filósofo Walter Benjamin nos advertiu há muito tempo, que os bens culturais também são frutos da corveia anônima dos oprimidos. Quando visitamos um monumento romano como o Coliseu em Roma, é fácil nos deixarmos impressionar pela grandeza desse passado. Mas quantos de nós recordamos que esse mesmo anfiteatro, como nos revela uma de suas inscrições, foi construído com os espólios da Primeira Guerra Judaica (66-73 d.C.) e, provavelmente, com a mão de obra de judeus escravizados nesse conflito?
Este livro é, nesse sentido, um convite a repensar o Império Romano de maneira mais ampla, mais crítica e, em grande parte, “a partir de baixo”. Espero que os leitores tenham uma ideia de como uma cidade-Estado se transformou em um Estado tributário vasto e diverso, e de como essa estrutura imperial, assim constituída, manteve-se por séculos, sobrevivendo e adaptando-se, até, finalmente, transformar-se nos vários Estados que a sucederam. Espero, porém, que vejam essa história como o resultado não só das decisões das lideranças e dos interesses aristocráticos, ou da correlação de forças entre Estados em competição, mas também da ação de pessoas comuns que, buscando seus próprios objetivos, acabaram promovendo e dando forma a seu mundo. Ao mesmo tempo, gostaria que também levassem em conta as experiências dos derrotados, dos escravizados e dos dominados, sem as quais não é possível compreender o impacto do império. Fiz o possível para evitar o foco excessivamente romanocêntrico e exclusivamente masculino que ainda caracteriza muitas narrativas sobre o Império Romano. Procurei, da mesma forma, ressaltar as tensões entre mudanças e continuidades, centro e periferia, unidade e diversidade, assimilação e resistência que marcaram toda a história desse império. Por fim, espero que os leitores tenham uma visão concreta de como os habitantes incorporados à ordem imperial experienciavam o nascimento e a infância, o casamento e a família, o amor e a sexualidade, o trabalho e o lazer, a velhice, a doença e a morte.
Neste livro, destinado a estudantes, docentes e demais interessados em História, procurei aliar no texto não só clareza e profundidade, mas também apresentar os avanços das pesquisas e discussões recentes sobre o Império Romano. Ao abordar alguns dos grandes problemas dessa história − como a natureza do imperialismo romano, as transformações culturais das províncias após a conquista, a dinâmica da economia imperial, as mudanças da Antiguidade Tardia ou ainda a relação entre as migrações bárbaras e o fim do Império Romano do Ocidente −, procurei sempre expor diferentes pontos de vista, para que os leitores possam compreender o que os historiadores debatem e, assim, formular suas próprias conclusões. Com o objetivo, igualmente, de mostrar como construímos nosso conhecimento sobre esse passado, procurei em todos os capítulos, especialmente nos boxes, mencionar alguns dos diversos tipos de documentos disponíveis, abrangendo desde textos preservados pela tradição manuscrita e inscrições até descobertas oriundas de pesquisas arqueológicas.
Este livro foi escrito a partir de minha experiência não apenas como historiador, mas também como professor de História Antiga no ensino superior há quase duas décadas. Não posso, portanto, deixar de mencionar o quanto aprendi com meus mestres, colegas, mas, sobretudo, com meus alunos e orientandos. Agradeço também às observações e às sugestões de vários leitores, em particular Carla B. Pinsky e Jaime Pinsky, Pedro Benedetti, Rafael Monpean, Juliana Marques Morais, Thais Rocha e Fabrício Sparvoli. Por fim, espero que este livro estimule os leitores a lançarem para o Império Romano um olhar renovado e a descobrirem na pluralidade de vozes e de experiências desse passado distante uma chave para refletirem de maneira mais crítica sobre nosso próprio tempo.

Julio Magalhães de Oliveira é doutor em História Antiga pela Université Paris Nanterre e professor de História Antiga na Universidade de São Paulo (USP). Coordena o grupo de pesquisas do CNPq ‘Grupos subalternos e práticas populares na Antiguidade’. Pela Contexto, é coautor do livro As religiões que o mundo esqueceu e autor do livro Império Romano.

