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Mudança sintática das classes de palavra: perspectiva funcionalista | Vol. 4

Mudança sintática das classes de palavra: perspectiva funcionalista | Vol. 4

Este quarto volume¹ da Coleção História do Português Brasileiro, intitulado Mudança sintática das classes de palavra: perspectiva funcionalista, que ora se apresenta, reúne cinco capítulos sobre aspectos relevantes de mudança linguística em quatro classes de vocábulos: pronomes, verbos, advérbios e preposições.

O capítulo 1, intitulado “A reorganização do sistema pronominal de 2ª pessoa na história do Português Brasileiro: a posição de sujeito”, foi organizado por Célia Regina Lopes, Leonardo Lennertz Marcotulio e Márcia Cristina de Brito Rumeu, entre outros autores das diversas equipes regionais do Projeto Para a História do Português Brasileiro (PHPB). Na primeira parte deste capítulo, são apresentados aspectos históricos, teóricos e metodológicos sobre as formas de 2a pessoa na história do português. Na segunda parte, apresenta-se uma análise descritiva do emprego das estratégias de referência ao sujeito de 2ª pessoa do singular em corpora diversificados das diferentes regiões do Brasil nos séculos XIX e XX. Os autores objetivam, assim, apresentar um panorama mais representativo do PB a partir dos resultados obtidos em documentação de mesma natureza produzida nas localidades brasileiras estudadas até agora no âmbito do Projeto Para a História do Português Brasileiro. Essa análise contrastiva de natureza diatópico-diacrônica foi feita com base na produção escrita de brasileiros de diferentes Estados. Inicia-se pela região sudeste com resultados de três localidades: a seção do Rio de Janeiro foi elaborada por Célia Regina Lopes e sua equipe, a de Minas Gerais foi feita por Márcia Cristina de Brito Rumeu e estudantes e a de São Paulo, por Vanessa Martins do Monte e Sabrina Balsalobre. A seção seguinte refere-se à região sul, representada apenas por Santa Catarina e feita por Izete Lehmkuhl Coelho e Christiane Maria Nunes de Souza. A região nordeste reúne três localidades: a seção da Bahia foi feita por Zenaide Novais Carneiro, Aroldo de Andrade e Mariana de Oliveira Lacerda; Pernambuco, por Valéria Severina Gomes e Rio Grande do Norte, por Marco Antonio Martins e Kássia Kamilla  de Moura. Os resultados remontam à primeira metade do século XIX até o século XX. Correlacionando sincronia e diacronia, os autores observaram se havia, na documentação remanescente, vestígios das diferenças atuais no sistema pronominal do português brasileiro: (i) você (como único tratamento pronominal empregado); (ii) tu (uso também exclusivo); (iii) você~tu (coexistência das duas formas variantes). O capítulo apresentou alguns resultados que são ponto de partida para estudos posteriores. Os autores observaram que as formas de tratamento tu e você foram registradas em todas as amostras regionais, ainda que, nem sempre, nos dois séculos analisados. Além dessas formas, outras estratégias também foram verificadas, principalmente, em fins do século XIX: Vossa Excelência (BA), Vossa Senhoria (BA), Vossa Mercê (MG, BA e PE), O Senhor (BA, PE e RN) e Vós (BA).

No capítulo 2, “A reorganização do sistema pronominal de 2ª pessoa na história do português brasileiro: outras relações gramaticais”, Célia Regina Lopes, Thiago Laurentino de Oliveira, Leonardo Lennertz Marcotulio, Camila Duarte de Souza e Rachel Lucena dão continuidade ao tópico dos pronomes de 2ª pessoa do singular na história do português brasileiro. O foco dos autores é, porém, as outras relações gramaticais diferentes do sujeito (objeto direto, objeto indireto, oblíquos e genitivo). Uma vez que o você passou a integrar, ao longo do tempo, o sistema do PB variando com o pronome tu, os autores se questionam sobre o comportamento das outras posições sintáticas, observando se as formas do paradigma do pronome você passaram a ser utilizadas em todas elas com a mesma força com que são empregadas na posição de sujeito. Os autores analisaram a escrita de brasileiras e brasileiros registrada em cartas pessoais, produzidas entre os séculos XIX e XX e em sete estados diferentes (Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Santa Catarina). O trabalho mostra que o processo de variação na expressão da 2ª pessoa do singular revela-se mais complexo e delicado em posições sintáticas diferentes do sujeito, visto que, em algumas delas, as formas relacionadas ao tu se mantiveram, com o passar do tempo, como variantes bastante frequentes na escrita pessoal.

No capítulo 3, intitulado “Formas simples e perifrásticas do verbo em relação ao domínio tempo-aspecto-modalidade”, Raquel Meister Ko. Freitag, Josane Moreira de Oliveira e Márluce Coan procuraram delinear o panorama do paradigma verbal do português do século XVI ao início do XXI considerando o domínio tempo-aspecto-modalidade. As autoras basearam-se em resultados de estudos descritivos de variação e mudança linguística que envolvem formas verbais e que tomam por base funções semântico-discursivas (valores de tempo, aspecto e modalidade) desempenhadas por formas verbais variantes com matizes de significado.

O capítulo 4, intitulado “Os advérbios: aspectos históricos e usos atuais”, de Maria Maura Cezario, Karen Sampaio Alongo, Deise de Moraes Pinto, Julia Costa Nunes, Bruna Soares e Érika Ilogti de Sá, aborda a classe de palavras dos advérbios com base na Linguística Funcional centrada no uso (cf. Bybee, 2010; Cezario e Cunha, 2013; Oliveira e Rosário, 2015). As autoras procuram mostrar a não homogeneidade da classe dos advérbios tendo em vista que funcionam num plano que oscila entre o campo do léxico e o campo da gramática. Trabalhando com as noções de contínuo e de prototipicidade, concebem, com base em Martelotta (2012), dois grandes grupos de advérbios: os centrados nos advérbios qualitativos e os centrados nos advérbios aspectuais. Dessa forma, o capítulo tenta explicar os usos dessa classe no âmbito sintático e semântico, levando em conta os usos de alguns advérbios com foco nos séculos XIX e XX.

No capítulo 5, “As preposições: aspectos históricos e usos atuais”, Verena Kewitz, Maria Lúcia L. de Almeida, Carlos Alexandre Gonçalves e Janderson Lemos de Souza adotam uma abordagem diferente sobre o que tradicionalmente se diz sobre as preposições. Os autores resgatam da tradição gramatical diversas descrições para permitir entender, de maneira integrada, a relação entre preposições e advérbios como um caso de heterossemia; a mudança por que passaram algumas preposições no português brasileiro; e a participação das preposições e dos advérbios na formação de verbos e mudanças em curso, em que a noção de variação cede prioridade à de perspectivização. Os autores partem da proposta de Charles Fillmore para reconhecer a orientação e a perspectiva como fatores determinantes de uma quarta forma de organização funcional da sentença, associam tal proposta à de George Lakoff a identificar a polissemia em sua relação com modelos cognitivos idealizados e formulam um projeto de pesquisa em que esse recorte da linguística cognitiva é conciliado com aspectos da abordagem multissistêmica, formulada por Ataliba T. de Castilho. O interesse em identificar os fatores cognitivos que organizam a gramática e a história de uma língua natural como sucessivas reorganizações cognitivas, tal como preconizado por Joan Bybee, é desenvolvido pelos autores a partir de processos cognitivos identificados pela linguística cognitiva (princípio da invariância), pela linguística funcional (chunking) e pela multissistêmica (princípio da recursão), tendo em vista oferecer ao leitor outra proposta de tratamento do produto preposição condizente com modelos baseados no uso.

O volume é um ponto de partida para novos estudos históricos sobre a diacronia do português brasileiro. Mais do que uma obra conclusiva, o livro traz hipóteses de trabalho para que novas pesquisas com materiais a serem encontrados nos acervos públicos e privados possam iluminar nosso passado linguístico.

Façam bom proveito!

NOTA: ¹ A publicação teve apoio financeiro do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do CNPq (Processo: 449989/2014-3 – Chamada: MCTI/CNPq/Universal 14/2014).


Célia Regina Lopes (coordenadora do volume)Graduada (Português/Literaturas), mestra e doutora em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras na mesma instituição. Atua na graduação e na pós-graduação (PPG-Letras Vernáculas). Bolsista de Produtividade do CNPq. Tem experiência em Sociolinguística, Linguística Histórica e História da Língua Portuguesa.