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Gramática para nosso tempo

Gustavo Fonseca – Estado de Minas (12/05/2012)

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Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo: uma forma apaixonada de apresentar a vitalidade da cultura

 

Em meados dos anos 1980, alguns dos mais destacados linguistas e gramáticos brasileiros publicaram livros em que questionavam boa parte das bases teóricas das gramáticas tradicionais. Entre eles, o professor de linguística da Faculdade de Letras da UFMG Mário Alberto Perini sintetizou parcela significativa da discussão no hoje clássico Para uma nova gramática do português (1985), obra com poucas dezenas de páginas e uma agenda de longo prazo a ser desenvolvida por especialistas da área tendo em vista a construção de um arcabouço conceitual mais sólido que o apresentado nos compêndios utilizados nas escolas nacionais para o estudo da língua portuguesa.

Dez anos mais tarde, Perini publica sua Gramática descritiva do português, na qual avança em determinadas questões, mas deixa em aberto ou a aprofundar inúmeras outras, que ele mesmo se comprometia a voltar a discutir. Promessa feita, promessa cumprida: em 2010 o professor Perini lançou outro marco nesta jornada iniciada há mais de 25 anos, sua Gramática do português brasileiro.

Em ambos os livros, estabelece-se como público-alvo a comunidade acadêmica de letras e os professores de língua portuguesa dos níveis fundamental e médio. Assim, ainda que reconheça a necessidade de levar as novas ideias gramaticais às escolas brasileiras, Perini deixa essa etapa para um segundo momento.

Como o colega mineiro, o ex-professor titular da USP e assessor linguístico do Museu da Língua Portuguesa Ataliba de Castilho, autor da Nova gramática do português brasileiro, também publicada em 2010, destina sua obra aos especialistas. No entanto, diferentemente de Perini, Ataliba de Castilho apressou-se em disponibilizar aos professores dos níveis fundamental e médio e seus alunos material baseado em sua nova abordagem da gramática. O resultado dessa iniciativa é o recém-lançado Pequena gramática do português brasileiro, escrita em parceria com Vanda Maria Elias.

No livro, os autores propõem uma maneira ativa de estudar o português. Os exemplos e exercícios não vêm apenas do cânone, mas também de crônicas, quadrinhos, notícias de jornais e mensagens trocadas em redes sociais, estimulando o aluno a formular suas próprias perguntas. A Pequena gramática. segue a premissa de que uma língua só existe a partir de seu uso, mostrando que o português é uma língua viva, que vai muito além de fórmulas. É um livro rigoroso, mas que não se esconde nas prescrições e indicações normativas. E, sobretudo, feito por quem gosta do português e quer despertar o mesmo interesse nos alunos e professores.

Todos esses pontos são indiscutivelmente relevantes, assim como as perguntas e respostas elaboradas pelo professor Perini em suas obras. No entanto, mais importante ainda talvez seja a divulgação feita pelos dois professores da gramática como campo de estudos em constante evolução, algo surpreendente a muitos leigos e a boa parcela dos acadêmicos de letras, como bem resumido no divertido Sofrendo a gramática, publicado por Perini em 1997: “Contrariando a crença popular, existe muita coisa desconhecida em gramática; e, correspondentemente, faz-se grande quantidade de pesquisa nessa área, descobrem-se novos fatos, controem-se novas teorias”. E conclui, cutucando o método de ensino praticado no país: “A gramática não é nada daquilo que nos impingem na escola. É uma disciplina ocupada, como as demais disciplinas científicas, em estudar um aspecto do mundo, a saber, a estrutura e o funcionamento das línguas. Entendida desse jeito, não só se torna muito mais interessante, como abre a possibilidade de pesquisa. Há o que descobrir em gramática, e muito”.

Nesse aspecto, a Pequena gramática do português brasileiro contribui e muito para a mudança de atitude a respeito do estudo da língua portuguesa nas escolas brasileiras. Em relação às aulas de português, aliás, Perini se põe ao lado dos alunos contra as tediosas e infrutíferas lições – mas também apoia os professores, igualmente vítimas das limitações das gramáticas tradicionais, como ressalta em muitos de seus livros. No mesmo Sofrendo a gramática, expõe de forma clara o que se passa nos colégios país afora: “O aluno de terceiro ano primário já está estudando as classes de palavras e a análise sintática – e não sabe. Ao chegar ao terceiro colegial, continua estudando a análise sintática e as classes de palavras – e continua não sabendo. Um professor de português, mesmo que de colegial, não pode entrar na sala esperando que os alunos dominem a análise sintática, ou que possam distinguir uma preposição de um advérbio, sob pena de graves decepções. E eles estudam esse assunto há oito anos, às vezes mais! Decididamente, alguma coisa está muito errada”.

Novamente desmentindo as correntes dominantes no país, Mário Perini e Ataliba de Castilho não veem numa suposta preguiça ou desinteresse dos estudantes, ou mesmo na desmotivação ou no despreparo dos professores, a raiz do entrave à aprendizagem gramatical. Para eles, na verdade, a origem do problema é o fato de as próprias gramáticas tradicionais apresentarem graves inconsistências teóricas, o que leva os alunos a se desinteressar pelo tema e os professores a repetir como dogmas os ensinamentos dos mestres do passado.

A fim de resolver toda a situação, cabe aos linguistas e gramáticos a construção de uma disciplina mais bem estruturada e coerente. A tarefa, claro, demanda tempo e o esforço de inúmeros especialistas. Nesse cenário, as publicações de Mário Perini e de Ataliba de Castilho têm o papel ímpar de manter aceso o debate. E a Pequena gramática do português brasileiro o mérito de dar um passo à frente na construção de material didático mais propício ao aprendizado da língua portuguesa.

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