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Escrever um livro exige disciplina e dá trabalho. Mas é fácil. Siga o roteiro – Parte V | Rubens Marchioni
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Escrever um livro exige disciplina e dá trabalho. Mas é fácil. Siga o roteiro – Parte V | Rubens Marchioni

Escrita CriativaDEPOIS DE RELACIONAR as informações, sua lista, escrita à mão, lembra o mapa do inferno? Comemore. Isso significa que você dispõe de muito conteúdo, tem algo a dizer. Não será o autor de um texto frouxo e sem consistência. Se depois de uma refeição, a pia estiver cheia de louça pra ser lavada, isso mostra que havia muito que ser colocado sobre a mesa, havia fartura. Parabéns, você dispõe de uma mesa farta. Só precisa colocar um pouco de ordem na hora de servir. Afinal, não é o caso de oferecer a sobremesa antes do prato principal. Nem a salada após o café.

Dar uma ordem de prioridade para os conteúdos de cada parte

Se estiver acompanhando o meu raciocínio, percebeu que chegou o momento de dar uma ordem de prioridade para as informações relacionadas na etapa anterior.

Qual é a número 1? Indique aquela que foi selecionada como a prioritária para o seu texto, a que deve ser vista em primeira mão. Ela certamente será transformada em título, o que você vai definir apenas no final. Quando olha para uma parede, a primeira coisa que vê é uma camada de tinta, mas, acredite, sua aplicação foi a última etapa daquele trabalho. Isso não significa que é proibido redigir primeiro o título. Apenas lembre-se de que, se, por um lado, essa prática orienta a sua escrita, definindo previamente um caminho seguro, por outro, ela pode engessar e comprometer o aspecto criativo. Em tudo existe o bônus e o ônus. E a escolha é sempre sua.

Retomando: se aquela informação é a número 1, usando a lógica, qual seria a número 2? E a número 3? E a última? Ficou uma lacuna? O que está faltando para que a fluência não fique comprometida? É só incluir e preencher o espaço.

A informação número 1 pode ser convertida em título. Quanto à última, existe a possibilidade dela ser eliminada, sem prejuízo para a compreensão da mensagem. Basta que ela não seja indispensável para o objetivo do texto ou que haja necessidade de cortes por motivo de adequação ao espaço disponível, o que acontece na redação de um artigo, por exemplo.

Escrever sem síntese, como artista, ampliando cada sinopse e dando-lhe o formato de um capítulo – é a primeira versão

Chegamos ao momento de escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, e só parar, para editar, no final, depois de escrever muito. Você é artista, não quer o juiz interno, a autocensura aniquilando suas ideias. Não permita que ele interrompa o seu trabalho de criador para dar opiniões que não foram pedidas. Além do que, você já sabe que aquele texto, na sua primeira versão, está imperfeito, vai precisar de um bom trabalho de aprimoramento, o que será feito no momento certo.

Sua tarefa, agora, é ampliar a sinopse, dando-lhe o formato de um capítulo. Mas lembre-se: aqui estamos falando apenas da primeira versão do seu texto. Se tiver como referência a maneira como o premiado Ernest Hemingway trabalhava, além de um alto nível de exigência, agirá como reescritor. Escreverá mais 38 versões para o seu texto, se necessário, até que ele seja considerado pronto para a publicação.

Agora, talvez eu precise pedir um esforço adicional. Não sei se é o seu caso, mas a maioria das pessoas encontra alguma dificuldade quando o assunto é escrever sem síntese. Estou falando da prática de redigir sem voltar atrás para corrigir ou modificar a última palavra ou frase.

Quando vemos um texto pronto, nossa tendência é acreditar que ele nasceu assim, redondo, completo, já na primeira versão. E começamos a escrever pensando que é desse jeito que as coisas funcionam. Não é. Por isso, essa tende a ser uma prática difícil na hora de escrever. O imediatismo e a falta de conhecimento dos bastidores da construção do texto, comum nos principiantes, pedem redação e edição ao mesmo tempo. Mas isso não funciona. No final das contas, não acontece nem uma coisa, nem outra, porque as duas ficam comprometidas. Por isso, a ordem é: primeiro escrever, para saber o que e como vai dizer determinada coisa, e editar somente depois.

A propósito: quando está conversando, numa roda de amigos, você diz uma palavra, interrompe o pensamento e volta atrás para corrigir ou eliminar a que acabou de dizer? Na escrita é a mesma coisa. Então, simplesmente escreva. Siga em frente. Não pare. Se for picado por uma abelha, não pare. Não permita quebrar o fluxo do pensamento. Ele deve jorrar da cabeça para o papel ou a tela do computador sem interrupções de qualquer espécie.

Não volte atrás para revisar. Escrever pode ser comparado ao ato sexual. Se parar, o orgasmo não chega, e o prazer se converte em frustração. Escrever é fazer amor com as palavras, como disse certa vez um escritor. O ato não pode ser interrompido.

A revisão? Isso é feito apenas no final, quando houver uma boa quantidade de texto a ser trabalhada. Senão, como burilar o que ainda não existe, não tomou forma? Sem os nove meses de gravidez, como esperar o nascimento de um lindo bebê? E sem um bebê, como ter um adolescente, um adulto?

Para concluir essa parte, uma consideração evidente: não existe trabalho de redação em grupo. Essa atividade é solitária. Comitês não escrevem. No máximo, assinam o que alguém, isolado, escreveu a partir de informações fornecidas pelos seus membros na hora de relacionar o conteúdo que deve integrar aquele texto.


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao texto[email protected] — http://rubensmarchioni.wordpress.com