A partir do final do século XX, a China demonstrou um crescimento econômico vertiginoso. Desbancando o Japão, tal desenvolvimento elevou o país, em 2010, ao patamar de segunda economia do mundo, sendo superado apenas pelos Estados Unidos da América. Ao alcançar essa posição, a China acirrou a disputa geopolítica com os norte-americanos. A ascensão chinesa despertou uma busca pela compreensão da razão pela qual a China passou de uma nação atrasada e rural no início do século XX para uma grande potência industrial, tecnológica e militar no século XXI.
O desenvolvimento da China não aconteceu por acaso. Sua cultura milenar baseada no confucionismo, o papel crucial que o aparato burocrático sempre exerceu no controle da economia, o planejamento estatal posterior à revolução comunista e sua dimensão continental, além da população gigantesca, são elementos fundamentais para a compreensão do desempenho fenomenal da economia chinesa na atualidade.

O livro China Contemporânea se propõe a analisar os fundamentos do desenvolvimento da nação chinesa. Ao longo dos sete capítulos, são examinadas as raízes históricas que deram as bases estruturais, políticas e intelectuais para a edificação do novo país. Centrado a partir do início do século XX, mas sem negligenciar as profundas influências do passado, a obra se debruça sobre os diversos processos sociais, políticos, culturais e intelectuais que transformaram a história da China e a levaram ao papel de nação protagonista no cenário internacional.
O texto reconstitui como era a sociedade chinesa no início do século XX, composta por uma maioria de camponeses pobres e analfabetos, onde prevalecia a opressão patriarcal sobre as mulheres; uma elite de grandes proprietários rurais; e um Estado imperial dirigido por uma minoria de burocratas letrados que servia fielmente a dinastia Qing. No começo desse século, a China estava mergulhada numa profunda crise de legitimidade, pois o país era dividido em áreas econômicas estrategicamente controladas por nações estrangeiras, principalmente Inglaterra, França e Japão.
As constantes revoltas camponesas, duramente reprimidas, abalavam o pouco prestígio que ainda restava ao império. As ideias nacionalistas e republicanas passaram a ganhar força, defendidas principalmente por setores médios da sociedade, formados por médicos, advogados, professores, estudantes, militares, escritores e jornalistas. O movimento republicano alcançou tal força que, em 1912, pôs um fim a dois mil anos de domínio imperial.
Mas a implantação da república não significou a estabilidade do país. Muito pelo contrário. O que ocorreu a partir daí foi uma forte fragmentação política da China, com vários senhores da guerra disputando o poder e levando ao ápice a repressão aos camponeses que se rebelassem. Enquanto isso, as nações imperialistas que dominavam os principais portos do país ampliavam o seu poder.
O período de guerra civil entre forças nacionalistas e senhores da guerra foi caótico. A unificação do país só foi possível mediante a formação da Primeira Frente Única, aliança política e militar entre o Partido Nacionalista e o Partido Comunista. Em 1927, com a derrota dos senhores da guerra, a luta fratricida entre nacionalistas e comunistas mergulhou a China numa espiral de violência que iria culminar na vitória da revolução comunista em 1949.
A partir da chegada dos comunistas ao poder, sob a liderança de Mao Tsé-tung, a China desencadeia o difícil e tortuoso processo de formação do Estado socialista. Influenciado pelo exemplo soviético, o Partido Comunista Chinês realizou uma profunda reforma agrária e deu início à industrialização do país. Enquanto isso, milhões de camponeses saíram da miséria, milhares de grandes e médios proprietários foram eliminados e ocorreu um intenso período de fome, abalando o prestígio de Mao Tsé-tung dentro da máquina partidária do PCCh. Com o objetivo de restaurar os princípios da revolução, a China passou a enfrentar um processo político traumático e violento, denominado Revolução Cultural, que vai de 1966 até 1976, ano da morte de Mao Tsé-tung.
Com o desaparecimento de Mao e a posse de Deng Xiaoping em 1978, a China vivencia uma profunda reforma econômica. As comunas deixam de existir, a produção agrícola familiar passa a ser incentivada pelo governo comunista e o capital estrangeiro é bem-vindo para investir no país. A partir da década de 1980, a China alcança expressivo crescimento econômico e atinge o patamar de superpotência mundial.
O livro China Contemporânea não se destina apenas ao público acadêmico. Objetiva alcançar todos aqueles que se interessam em compreender como a China saiu de uma situação de pobreza e tornou-se a segunda maior economia planetária. E traça o percurso histórico marcado por avanços e recuos, momentos de extrema violência política e de estabilidade, períodos de miséria e abundância, até chegar ao colosso asiático dos dias de hoje.
Lúcio Flávio Vasconcelos é professor titular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde leciona as disciplinas História da Ásia Contemporânea e História da China Contemporânea. Realizou pós-doutoramento no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. É mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP).

