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China contemporânea

Nas últimas décadas, a China teve um crescimento econômico nunca antes registrado na História. A economia chinesa tornou-se a principal compradora de matérias-primas e também a principal exportadora de mercadorias do mundo. Com investimentos maciços na África, Ásia e América Latina, tem desbancado os Estados Unidos nos mercados emergentes dos três continentes.

Contudo, até a década de 1970, a China era um país pobre e eminentemente agrícola, com uma produção industrial atrasada. Sua população, de 1 bilhão de habitantes, era composta por cerca de 80% de camponeses, a maioria deles vivendo na extrema pobreza. Boa parte dos habitantes das cidades, entre elas Pequim e Xangai, vivia dos cupons de racionamento de alimentos. O principal meio de transporte era a bicicleta.

A partir de 1978, tudo começou a mudar. A China deu início a uma série de reformas que transformaram profundamente a economia. Com a abertura ao capital estrangeiro, dezenas de grandes empresas internacionais passaram a investir no país, gerando milhões de empregos e ampliando a influência da China no cenário mundial. Mas, mesmo com a abertura econômica, o país permaneceu sob o controle do Partido Comunista Chinês, no poder desde o triunfo da Revolução Comunista, em 1949.

China contemporânea

O desenvolvimento colossal da China não é um raio em céu azul. A civilização chinesa tem mais de 5 mil anos de existência. A partir da constituição do primeiro Estado centralizado, que ocorreu durante a dinastia Qin (entre 221 a.C. e 206 a.C.), a China foi um dos principais impérios asiáticos e suas invenções mais notáveis (bússola, pólvora, papel e impressão) modificaram a história do mundo. Durante 20 séculos, os chineses foram governados por dinastias centralizadas, sustentadas por uma grande massa de camponeses.

O período de declínio da China começou no século XIX. Canhoneiras britânicas bombardearam o país diversas vezes para abrir o mercado e sustentar o comércio do ópio. Entre 1839 e 1860, ocorreram vários conflitos entre a Grã-Bretanha e os chineses em batalhas que entraram para a História como Guerras do Ópio. Em consequência da superioridade bélica dos ingleses, a China foi obrigada a conceder não só diversos portos para o comércio da droga, como também de outras mercadorias. A Inglaterra, nação capitalista mais poderosa na época, se apoderou da ilha de Hong Kong e a transformou em um importante entreposto comercial.

Atrás dos imperialistas ingleses vieram os franceses, os japoneses, os alemães e os norte-americanos, que também obtiveram concessões econômicas. Foi o início do Século de Humilhação, que se estendeu de 1839 a 1949. Nesse período, além de subordinar-se ao imperialismo ocidental, a China também seria alvo das ambições territoriais japonesas.

Durante o turbulento início do século XX, nenhuma nação foi palco de tantas rebeliões, revoltas camponesas, insurgências políticas, guerras civis e revoluções quanto a China. Já no início do século, o Império do Meio (nome dado pelos chineses ao seu país) enfrentava uma profunda crise social e política em decorrência da ação das potências imperialistas em seu território e das frequentes insurgências camponesas que abalavam o poder da dinastia Qing (1644-1912). As nações estrangeiras pressionavam para ampliar seus domínios. Os camponeses exigiam terras, o fim da exploração exercida pelos grandes proprietários e a diminuição dos impostos cobrados pelo Estado. A corrupção era um problema endêmico entre os membros da burocracia, que sobrecarregava, sobretudo, o campesinato.

Após mais de 250 anos no poder, a dinastia Qing, formada por manchus, etnia minoritária diante da maioria da etnia han, demonstrava claros sinais de decadência. Enfraquecida, a dinastia mal dava conta de controlar as constantes revoltas, entre as quais a Rebelião dos Boxers, movimento popular de caráter anti-imperialista, anticristão e anticolonial, que convulsionou a China nos anos 1899 e 1900. Essa rebelião, em particular, acabaria sendo duramente reprimida por forças imperiais chinesas auxiliadas por um exército internacional enviado por oito países.

Nessa época, os fortes ventos do nacionalismo e do republicanismo também abalavam os frágeis pilares da dinastia. A República seria finalmente proclamada na China em 1912, mas em bases sociais e políticas frágeis. O governo mudou de mãos, mas o imperialismo permaneceu controlando vastas áreas, pois as forças republicanas não tinham condições militares de enfrentar poderosos exércitos estrangeiros. Além disso, exércitos privados regionais comandados pelos chamados “senhores da guerra” se digladiavam procurando garantir seu poder local. Aproveitando o momento conturbado, o Japão invadiu a China em 1937 e estabeleceu o controle sobre as principais áreas econômicas do país. Entre 1937 e 1945, ocorreu uma intensa luta guerrilheira de nacionalistas e comunistas unidos contra o domínio nipônico. Os japoneses foram derrotados. Os comunistas ganharam popularidade. Em 1949, se deu a vitória da Revolução Comunista, liderada por Mao Tsé-tung.

Durante os conflitos ligados à Revolução, milhões de chineses morreram e a economia ficou arrasada. Mas, nos 50 anos seguintes, a China vivenciou o processo de desenvolvimento econômico e social mais extraordinário do mundo.

Com o início da Guerra Fria, os norte-americanos passaram a ditar as regras políticas, culturais e econômicas das nações capitalistas. Com o fim da União Soviética, em 1991, o modelo de sociedade representado pela nação americana seria tido como o referencial para todos os países, caso quisessem se desenvolver. Assim, o crescimento vertiginoso da China, iniciado na década de 1980, em outros moldes, despertou o temor dos Estados Unidos. Em 2010, o país asiático se tornou a segunda nação mais poderosa do planeta. As mercadorias chinesas inundaram o mundo, principalmente o mercado norte-americano. Os sucessivos governos que ocuparam a Casa Branca, republicanos e democratas, passaram a traçar estratégias de contenção ao expansionismo chinês.

Em 2013, o presidente Xi Jinping lançou um projeto de conexão comercial extremamente audacioso. Denominado Nova Rota da Seda, o programa propunha a integração da China com os demais países da Ásia, África, Europa e América Latina mediante vultosos investimentos em infraestrutura (estradas, pontes, portos e aeroportos) em nações consideradas estratégicas. Assim, promoveria um fluxo contínuo de mercadorias e serviços entre os continentes.

O crescimento recente da China não é resultado apenas da abertura da economia ao capital estrangeiro. No século XIX, o imperialismo europeu já havia investido no país, e as consequências para a maioria dos chineses foram mais pobreza e miséria. O desempenho da economia chinesa, a partir da década de 1950, tem bases bem mais profundas e sólidas. O papel do Estado como indutor do desenvolvimento, o confucionismo fundamentando a cultura política, a valorização da educação e o governo profundamente nacionalista liderado pelo Partido Comunista Chinês são alguns dos pontos que devem ser considerados.

China contemporânea

Não é arriscado dizer que a disputa mundial entre a China e os Estados Unidos está apenas no início. O século XX foi palco da americanização do planeta. A Coca-Cola, o McDonald’s, o jazz e a internet, criações norte-americanas, fazem parte do cotidiano de bilhões de pessoas. O regime democrático estadunidense tornou-se referência política para dezenas de países, inclusive o Brasil. Mas, com o despontar da China no século XXI, o cenário começou a mudar. Os Estados Unidos se sentem ameaçados pelo poderio chinês. Choques de interesse entre as duas potências têm ocorrido diariamente. Esse é o grande conflito do nosso tempo.

Este livro apresenta a história recente da China, assim como seu povo e sua cultura, cada vez mais relevantes em termos mundiais e presentes no dia a dia dos brasileiros.


Lúcio Flávio Vasconcelos é professor titular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde leciona as disciplinas História da Ásia Contemporânea e História da China Contemporânea. Realizou pós-doutoramento no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. É mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP).

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