Fechar
Antártida enfrentava incêndios espontâneos há 75 milhões de anos

Antártida enfrentava incêndios espontâneos há 75 milhões de anos

O continente gelado já foi verde – e passou por queimadas causadas por vulcões. Veja o que revela a pesquisa realizada pelo projeto brasileiro Paleoantar.

O continente antártico nem sempre foi dominado pelas cores brancas e frias. Uma pesquisa publicada no jornal acadêmico Polar Research mostrou que, durante o período Cretáceo, há 75 milhões de anos, a Antártida não só tinha florestas, como também enfrentava incêndios naturais.

A conclusão é baseada em um pedaço de madeira carbonizado encontrado em uma expedição no continente gelado realizada em 2016. Na época, pesquisadores do projeto Paleoantar estavam explorando a formação de Santa Marta, ao nordeste da ilha de James Ross, quando se depararam com o registro fóssil. Apesar de estar totalmente queimado em seu exterior, os cientistas conseguiram usar análises laboratoriais para descobrir que o fragmento era uma lasca de árvore queimada da família Araucariaceae. 

Antártida enfrentava incêndios espontâneos há 75 milhões de anos
Fóssil de madeira carbonizada encontrado por pesquisadores durante expedição na Antártida. Polar Research/Divulgação

Diversos fatores que podem desencadear incêndios naturais, como a queda de raios e até a própria combustão natural. Neste caso, os cientistas sugerem que o incêndio tenha sido causado pela erupção de vulcões, que eram mais comuns na época.

A razão para isso é a movimentação das placas tectônicas. Há 200 milhões de anos, existia um supercontinente chamado Gondwana, que unia a Antártida à América do Sul, África, Índia e Austrália. Aos poucos, as massas de terra foram se afastando até atingirem suas posições atuais. Toda essa movimentação favoreceu o aparecimento desses gigantes caldeirões de lava e os consequentes incêndios.

Antonio Álamo Saraiva, pesquisador da Universidade Regional do Cariri, explicou, em uma coletiva de imprensa, a importância de estudos envolvendo paleo incêndios em um cenário de aquecimento global que vivemos atualmente. “Precisamos de todas as informações possíveis sobre o que aconteceu no passado para poder lidar com as variações ambientais adversas que virão em um tempo não muito distante”, disse o pesquisador. 

Os incêndios naturais continuam ocorrendo em diferentes partes do globo, mas hoje a incidência das queimadas é maior devido às ações humanas. Se no passado os eventos climáticos extremos levaram a extinções em massa, já podemos esperar o que o futuro nos reserva – e em intervalos de tempo ainda menores. Não é chute: relatórios recentes divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostraram que eventos de calor extremo que aconteciam uma vez a cada 50 anos, por exemplo, podem se tornar 39,2 vezes mais frequentes.

De toda forma, a Antártida é o melhor lugar para fazer este tipo de estudo paleoclimático, já que seu ecossistema foi o que menos sofreu intervenções humanas diretas. Os pesquisadores devem seguir estudando o continente a fim de entender quais espécies existiam na região, se alguma delas foi capaz de se adaptar aos incêndios, quais foram extintas, entre outras questões. Para chegar a tais respostas, é preciso voltar ao continente e seguir buscando por resquícios do passado verde em meio ao gelo.

Fonte: Revista Superinteressante