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Alfaletrar: o que pretende este livro? | Magda Soares

Alfaletrar: o que pretende este livro? | Magda Soares

Alfaletrar: o que pretende este livro? | Magda Soares

ALFALETRAR: eis uma palavra nova ainda pouco conhecida e pouco usada. Novas palavras surgem pela  necessidade de dar nome a novos objetos, novos processos, novos conceitos. Assim, a escrita digital trouxe novas palavras, como tuitar, linkar, escanear, deletar, googlar; e a coexistência de várias classes sociais e diferentes raças no contexto escolar tornaram comum a defesa do respeito ao multiculturalismo. São neologismos; alguns, quando se tornam de uso frequente e permanecem ao longo do tempo, são incorporados ao léxico da língua e acabam por ser dicionarizados. Por outro lado, o dinamismo e a progressiva complexidade da evolução social tornam antigas, desusadas palavras e expressões que já foram de uso comum: cartilha era palavra frequente no vocabulário escolar, hoje raramente se vê usada; cadernos de caligrafia, obrigatórios no material escolar das crianças em fase de alfabetização, são hoje raramente conhecidos; e não nos esqueçamos da palmatória, que já foi instrumento de castigo para maus comportamentos…

ALFALETRAR é um neologismo: reúne dois processos que se desenvolvem simultaneamente, alfabetizar e letrar, alfabetização e letramento. Talvez já nem seja mais um neologismo, pois já vem sendo usado com frequência e naturalidade nos contextos da educação, particularmente da aprendizagem inicial da língua escrita.

O livro Alfaletrar: toda criança pode aprender a ler e a escrever, reunindo em seu título alfabetizar e letrar,  propõe uma ampliação do conceito de alfabetização, que tradicionalmente se restringia à apropriação do sistema de escrita alfabético: crianças deviam aprender a ler e a escrever, verbos estes usados sem complementos. Empregados, assim, quando se dizia que uma criança já sabia ler, já sabia escrever. Mas ler o quê? Ler textos artificialmente compostos para servir à decodificação de palavras e frases? Escrever o quê? escrever palavras e frases já aprendidas, que apenas reproduziam?

Atualmente, porém, não se pode deixar de reconhecer que as crianças, desde pequenas, antes mesmo de entrar na escola, vivem cercadas de material escrito, dos mais diferentes gêneros e em variados portadores: no contexto familiar e de sua comunidade veem contas de luz, de água, listas de compras, jornais, revistas, cartazes, propagandas… e na escola, desde a educação infantil, têm contato com livros, sobretudo livros de literatura infantil. Enfim, interagem com textos reais, em suportes reais. Que sentido faz que, para aprender a ler, tenham de fazê-lo com textos artificiais, tão distantes daqueles com que convivem na família e em seu contexto cultural?

A proposta, no livro Alfaletrar, a é alfabetizar, sim, mas no contexto dos usos sociais da leitura e da escrita, aprender a ler convivendo com os vários gêneros e suportes da escrita. A criança aprende a tecnologia – o sistema alfabético de escrita – ao mesmo tempo que convive com os usos desse sistema, reconhecendo a indissociabilidade entre estar se alfabetizando e estar se letrando; aprende a ler para se tornar capaz de ler o que se lê na vida real; aprende a escrever para produzir textos que são produzidos na vida real.

O livro Alfaletrar fundiu, no título e em seu conteúdo, em uma só palavra os dois processos: alfabetizar e letrar, apresentando, em práticas pedagógicas, essa indissociabilidade entre apropriar-se do sistema alfabético de escrita e fazer uso desse sistema em atividades reais de ler e escrever.  O que não quer dizer que não se mantenha a especificidade de cada processo: o livro expõe como esses dois processos podem ser desenvolvidos simultaneamente, mas por meio de ações educativas que garantam a especificidade de cada um, já que cada um visa a objetivos, habilidades e competências específicas.

Em síntese, o livro Alfaletrar é uma proposta para que alfabetizadoras e alfabetizadores introduzam as crianças no rico mundo do escrito, orientando-as para apropriarem-se do sistema de escrita alfabético e para tornarem-se capazes de dele participar plenamente nas múltiplas situações que envolvem o texto escrito. 


Magda Soares é professora titular emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da UFMG. Graduada em Letras e doutora e livre-docente em Educação. Em 2017, recebeu o prêmio Jabuti de melhor livro de não ficção do ano com Alfabetização: a questão dos métodos (Editora Contexto). Também pela Contexto, publicou, como autora, Linguagem e escola e Alfabetização e letramento, Alfaletrar:toda criança pode aprender a ler e a escrever e, como coautora, O Brasil no Contexto 1987-2007 e O Brasil no Contexto 1987-2017.