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A máquina de crenças e a ciência | Ciência e Pseudociência

A máquina de crenças e a ciência | Ciência e Pseudociência

Um homem sábio faz com que sua crença seja proporcional à evidência – David Hume

Diariamente somos bombardeados por informações científicas. Do entretenimento ao autoconhecimento, passando por questões ligadas a alimentação, suplementos alimentares e medicamentos para manter a saúde e curar doenças. Você já deve até mesmo ter assistido a documentários na televisão que tratam de assuntos intrigantes, como óvnis, o pé-grande ou alienígenas que viveram no passado. Esses programas trazem pessoas que se apresentam como cientistas interessados em desvendar esse tipo de mistério. Em geral, as evidências que esses pesquisadores mostram para provar suas teses são relatos de testemunhas de pretensos discos voadores, vídeos borrados de uma figura humanoide com mais de dois metros de altura e esculturas milenares enormes que não poderiam ter sido movimentadas com a tecnologia ancestral. Você já parou para pensar se, de fato, tais evidências podem ser consideradas científicas?

Imagine outra situação, também corriqueira. Você vai a uma livraria e encontra nas principais prateleiras, com muito destaque, um livro que chama a atenção. Bem evidente na capa está o nome do autor associado a um título acadêmico, como PhD ou doutor. O título do livro é bem sugestivo: Teoria do autoconhecimento inconsciente. Logo nas primeiras páginas o autor discorre sobre sua larga experiência profissional como psicoterapeuta e sobre uma teoria científica inovadora que desenvolveu durante décadas de trabalho. O autor afirma conseguir explicar o que nenhuma outra teoria científica desenvolvida até então nas áreas de psicologia, psiquiatria e neurociências havia conseguido: desvendar o mistério da relação entre consciência e inconsciência. Apresentando sua teoria, a autor descreve vários conceitos científicos novos, tais como a “autoinspeção intuitiva da memória inconsciente” e a “transmutabilidade da energia psíquica consciente-inconsciente”. Ele diz que compreender a teoria trará ao leitor grande autoconhecimento sobre a relação do consciente e inconsciente, o que permitirá ter clareza sobre os principais mistérios de sua psicologia e do que motiva o seu comportamento. Você julgaria que a informação desse livro é científica? Se a considerar científica, isso aumentaria a chance de você comprar o livro?

Há outros assuntos relevantes para nossa vida que também são apresentados como científicos. As pessoas que nos vendem produtos e serviços, muitas vezes, apresentam argumentos que envolvem concepções científicas. Quem nunca recebeu uma ligação de um serviço de telemarketing dizendo sobre a capacidade preventiva do ômega 3? Tal capacidade foi descoberta por pesquisadores de uma conceituada universidade, é o que, em geral, nos dizem seus vendedores. Tendo esse tipo de argumento como pano de fundo, o vendedor fala das propriedades do ômega 3 para a redução dos radicais livres e antioxidantes, responsáveis pelo envelhecimento precoce e pelo surgimento de inúmeras doenças. O fato de o vendedor informar que há conhecimento científico sobre ômega 3 é relevante para sua decisão de comprar as cápsulas? Se para você não é, julga que seria para outras pessoas?

O argumento de que se trata de conhecimento científico também é utilizado para abordar outros temas. Tomo como exemplo a “teoria da Terra plana”,1 que virou uma febre de discussões na internet, em redes sociais e vídeos. Alguns argumentos utilizados pelos defensores da alegada “teoria” asseveram que existem muitos cientistas que investigam a possibilidade de que a Terra seja plana. Seus defensores afirmam que o verdadeiro motivo que leva a maioria a argumentar que a Terra é uma esfera é o interesse escuso de corporações que lucram com isso. É interessante notar como as justificativas para defesa de uma tese como essa, da Terra plana, são colocadas com um emaranhado de negações e interpretações equivocadas de informações científicas. E tudo somado com alegações de que os cientistas começam a se interessar pelo assunto. Isso posto, pergunto: para você, esses argumentos aumentam a credibilidade das alegações de que a Terra é plana? Você julga que isso funcionaria para outras pessoas?

Situações corriqueiras como essas têm importância para todos nós, em diferentes contextos e situações. O discurso do conhecimento científico é utilizado de inúmeras formas, sendo presente em nossa vida, seja como estratégia para atrair atenção em um programa de entretenimento, para persuadir a comprar um livro, ou para fornecer ferramentas profissionais. O mundo está abarrotado de informações relativas ou atribuídas à ciência. Por isso é importante conceituar de forma simples e clara o que ela realmente é. É essencial saber o que caracteriza um conhecimento para que possamos chamá-lo de científico.

Levando essa questão em conta, esta obra procura contribuir para a divulgação científica, mais especificamente para divulgar como a ciência funciona e a relação desse funcionamento com a psicologia do conhecimento. Quais as propriedades do conhecimento científico? Como ele se diferencia de outros sistemas de crença que servem para explicar o universo em que vivemos? Quais as características da psicologia do conhecimento? Como a psicologia humana se beneficia do fazer científico para compreender a realidade? Ao longo das páginas deste livro, explico as características do conhecimento científico e sua relação com a psicologia do conhecimento.

Em primeiro lugar, diferencio conhecimento científico do conhecimento não científico. Existe uma enorme quantidade de publicações e divulgadores (livros, revistas, palestrantes, programas de TV, rádio, instituições etc.) que se anunciam como científicos. Mas apesar da aura acadêmica criada por currículos invejáveis, boa parte desses meios se afasta, de forma intencional ou não, do caráter fundamental e precioso do conhecimento científico. O que caracteriza o conhecimento científico não é o currículo acadêmico daquele que lhe transmite o conhecimento, mas sim o fato de sempre reconhecer que o que sabemos pode ser falho, e que, mesmo eventualmente falho, é útil naquele momento porque existem evidências que sustentam aquele conhecimento. Um grande número de autores vende a cientificidade de suas ideias quando não possuem esse predicado. Neste livro fornecerei alguns subsídios para você navegar neste mar de crenças pseudocientíficas, paracientíficas e de ciência picareta, dando-lhe ferramentas para compreender como seu cérebro constrói crenças e informando critérios para diferenciar conhecimento científico do não científico. Este livro pode servir como um guia para você avaliar criticamente as informações que consome.

Em segundo lugar, ele aborda um dilema para muitas pessoas: a coexistência, em nossa mente, de crenças de naturezas diferentes. Em outras palavras: como podemos crer em explicações científicas sobre muitas coisas, mas, ao mesmo tempo, nutrir crenças religiosas para a compreensão de tantas outras? Muitos identificam a incompatibilidade de sistemas de crença tão diferentes, mas, mesmo assim, são capazes de conviver com ambos. Algumas vezes, essa incompatibilidade causa desconforto, outras não. Neste livro, conceituo o mecanismo psicológico que maneja essa questão: os Escaninhos Mentais. Não forneço, portanto, um guia, mas uma ferramenta para o autoconhecimento.


EM TEMPO:

O canal Minutos Psíquicos fez um vídeo com algumas dicas de como identificar informações pseudocientíficas na internet.

(Caso o vídeo não apareça, veja diretamente no Youtube)


Ronaldo Pilati é doutor em Psicologia e professor de Psicologia Social na Universidade de Brasília. Sua área de interesse é a Cognição Social, com foco em racionalidade e irracionalidade humana. Realiza pesquisas científicas sobre diversos temas, como moralidade, comportamento pró-social, desonestidade e influência da cultura no comportamento. Possui interesse especial em como as pessoas compreendem e acreditam em explicações sobre o mundo que as rodeia.