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A justiça nas relações sociais | Rubens Marchioni

A justiça nas relações sociais | Rubens Marchioni

Pensar sobre justiça nas relações humanas remete à ideia de comportamento equilibrado. Nele, o espaço do outro é respeitado, prevalecendo a busca pela qualidade de vida.

No entanto, é impossível pensar em justiça, em todos os níveis, num mundo que não prioriza a educação e a cultura, onde tudo se inicia. Porque são esses os elementos essenciais à construção de uma sociedade que valoriza o ser humano e viabiliza o seu desenvolvimento em todos os níveis. O contrário disso pode atender pelo nome de barbárie e tem, em certo tipo de governo, a sua fundamentação maior. 

Essa justiça depende, de um jeito ou de outro, da existência de um senso crítico por parte de cada cidadão. Ela requer a urgente capacidade de problematizar o cenário em que as pessoas se encontram e desempenham suas funções.

Nesse sentido, a família é a primeira experiência de relações humanas. E tudo o que acontecer de positivo ou não, de maneira justa ou injusta, nesse contexto, vai influenciar para sempre a forma como essas relações acontecerão ao longo do tempo – na igreja, na escola, na empresa, na política, na sociedade, enfim.

O poder, a política, tudo pode contribuir de maneira substancial para a criação de um clima de justiça nas relações entre as pessoas. Nesse caso, tudo depende da forma como garantem, ou não, condições iguais para todos, a fim de que ninguém deixe de dispor dos meios necessários para evoluir em todas as áreas, como já disse. A política faz parceria com o poder nessa empreitada, e essa prática é indispensável para o bom andamento do processo como um todo.

Se o governo, no exercício do poder, trabalha a partir de uma ideologia voltada para o bem-estar das pessoas, criando condições para que a presença, na polis, no sentido grego, tomada aqui como cidade, local onde as pessoas vivem, seja uma experiência feliz, caminha-se para a vivência de relações humanas no seu sentido mais pleno e justo.  

Por sua vez, a religião, elaborada pela teologia, tem grande importância nesse cenário. Mais do que importância, ela tem responsabilidade. Afinal, não é difícil usar sua força, seus mecanismos, para impor uma situação injusta como algo criado por Deus ou procedente de alguma divindade. Ou, talvez, do Universo, como o grande articulador do nosso destino. Qualquer que fosse o recurso de que lançaria mão, isso facilitaria o seu trabalho de manter as pessoas aprisionadas a uma visão que serve apenas a um grupo interessado nos resultados obtidos por essa forma de ver a vida e o mundo.  

Ao mesmo tempo, a ideia de justiça nas relações humanas supõe o atendimento de necessidades que dizem respeito à manutenção da dignidade e da sobrevivência biológica, para ficar no primeiro nível sugerido pelo psicólogo americano Abraham Maslow, que definiu, em seu tempo, o que era considerada uma escala suficiente de necessidades e desejos a serem atendidos: 1. Deficiência – 2. Crescimento – 3. Transcendência. E isso supõe que as pessoas disponham de meios para ganhar o sustento diário e regular. Porque gente de estômago vazio e sem os recursos necessários para desenvolver a sua parte nas tarefas que levariam à criação de uma sociedade justa, devido à falta de condições mínimas para exercer o mais primitivo senso de cidadania, é improdutiva.

Entrando em outra área, a ética é o elemento fundamental na construção das relações humanas construídas a partir de critérios de justiça. Ela alimenta a prática política saudável, aquela que desenha uma sociedade capaz de viabilizar esse projeto.

Valores, ética, ideia de serviço realizada com o sentimento de missão para tornar a sociedade ainda melhor: tudo isso sustenta a busca por uma vida que se caracteriza pelo predomínio da justiça em todas as relações.

Assim, tudo somado, criam-se as condições favoráveis para o desenvolvimento pessoal e social, uma prática que funciona à base da retroalimentação. Quando a justiça se torna precária, a busca pela sensação de paz se transforma em algo inviável, de onde não se pode esperar colher qualquer fruto. Quando se entende esse princípio, começa-se, ao menos, a deixar de impedir o nascimento e a prática da justiça nas relações humanas.  Para concluir, convém lembrar que a sociedade em que a justiça entre as pessoas se revela, a todo instante, como a grande marca, é a utopia que deve nos conduzir, hoje e sempre, até o ponto mais alto que se pode conquistar nesse terreno.


Rubens Marchioni é palestrante, produtor de conteúdo, blogueiro e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Pela Contexto é autor de Escrita criativa: da ideia ao texto. https://rumarchioni.wixsite.com/segundaopcao / e-mail: [email protected]