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28 de junho (1919) | Tratado de Versalhes
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28 de junho (1919) | Tratado de Versalhes

Georges Clemenceau (1841-1929), “O Tigre”, presidente do Conselho de Ministros da França e da Conferência de Paz de Paris, percorre o Palácio de Versalhes. O palácio fora erguido sob as ordens de Luís XIV (1643-1715) para celebrar o poderio e a glória da França e do rei que fez do Sol o símbolo de seu reinado. A visita de Clemenceau, em junho de 1919, é para verificar obras que mandou fazer no cenário escolhido por ele para a assinatura do tratado de paz entre os Aliados e a Alemanha, vencida na guerra de 1914-1918. A Grande Guerra (depois chamada Primeira Guerra Mundial) durou quatro anos, causou 10 milhões de mortes e extensa destruição. Catástrofe que seria largamente ultrapassada pela Segunda Guerra Mundial, para cuja eclosão o Tratado de Versalhes contribuiu.

Clemenceau detém-se na Galeria dos Espelhos, magnífico salão de 70 metros de comprimento e largura de 10, com uma cúpula que se eleva a 13 metros, paredes de mármore, iluminadas por grandes lustres de cristal e decoradas com belas pinturas, presentes em todo o palácio. Por grandes portas voltadas para os jardins, a luz entra e reflete nos 357 grandes espelhos que dão nome à galeria. Passam pelo pensamento do “Tigre” cenas antigas de meio século, quando o então jovem deputado da Assembleia Nacional viveu a Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871: a debacle francesa; a derrota na batalha de Sedan; o imperador Napoleão III prisioneiro; o chanceler prussiano Otto von Bismarck escolhendo aquela mesma galeria para proclamar a existência do II Reich, o Império Alemão, estando ali presentes o rei da Prússia, Guilherme I, e um auditório de oficiais alemães em brilhantes uniformes de gala.

Notabilizado pela intensidade da paixão pela França e por simétrico ódio pela Alemanha, Clemenceau preparou e dirigiu a cerimônia de assinatura com a mesma ferocidade com que fizera a guerra e presidira a Conferência de Paris que elaborou o tratado. Convalidava o cognome de “O Tigre” a figura física, os enormes bigodes a escorrerem por sobre a boca e o olhar de predador. Ferocidade alternada com tino político, provado na luta pelos interesses franceses durante as negociações de paz. Com o minucioso preparo do cenário e do ritual de assinatura do Tratado de Versalhes, “O Tigre” coroava a vitória e a revanche. Da França e dele mesmo.

Assim como Clemenceau, grande ator da Conferência, David Lloyd George (1863-1945), fiel à divisa enunciada pelo primeiro-ministro, seu antecessor: “A Inglaterra não tem amigos, nem inimigos. Tem interesses”. E Vittorio Emanuele Orlando (1860-1952), primeiro-ministro da Itália, defendendo apaixonadamente as reivindicações de sua pátria.

A estrela maior do Tratado de Versalhes e da Conferência de Paris que o produziu foi Thomas Woodrow Wilson (1856-1924), por ser o presidente dos Estados Unidos e pelas ideias proclamadas no discurso chamado os “Catorze Pontos de Wilson”. Inovador e revolucionário, o discurso pregava a adoção de princípios éticos na política exterior e, em particular, no futuro tratado de paz; e preconizava a constituição de um organismo internacional, a Liga das Nações, capaz de fazer com que a negociação substituísse a guerra na solução das controvérsias internacionais.

Em torno desses grandes atores, estavam outros menores, alguns no­tá­veis, como Eleutherio Venezielos, presidente da Grécia; o príncipe Kimmochi Saionji, do Japão; Louis Botha, soldado e estadista da África do Sul. Na legião de coadjuvantes, influenciadores de importantes decisões, destacava-se o “coronel” House. Friorento, magrinho, de fala suave, ele repetia: “Não quero nada, só quero ajudar”. Não precisava querer, possuía o poder de fato decorrente de “ter o ouvido do chefe” Wilson, que lhe dizia: “Você é a única pessoa no mundo com quem posso discutir tudo”. Chamavam o milionário texano Edward Mandell House (1858-1938) de coronel, posto puramente honorífico. O presidente e seu grande amigo terminaram desafetos, em circunstâncias até hoje pouco claras. Quando o rompimento entre eles se deu, House era o alter ego de Wilson nas negociações de paz, da qual foi minucioso cronista. Convocados apenas para assinar, com lugares na mesa correspondentes ao que nos julgamentos se reservam aos réus, os dois delegados da Alemanha vencida.

Minucioso, complexo, admirado e detestado, relevante e polêmico, o Tratado de Versalhes está presente no temário das instituições de estudos político-diplomáticos, volta e meia relembrado ao grande público, a propósito de questões internacionais. O documento, assinado a 28 de junho de 1919, foi a resultante possível do esforço de conciliação entre ideias e posições divergentes, e mesmo conflitantes. Divergências que pontilharam seis meses de negociações na Conferência de Paris, estenderam-se após a assinatura do tratado e que estão registradas em documentos emitidos em dois momentos da guerra: os “Catorze Pontos de Wilson”, constantes no discurso do presidente dos Estados Unidos perante o Congresso, em 8 de janeiro de 1918, e o acordo de Armistício, celebrado dez meses depois, a 11 de novembro de 1918, entre os Aliados e a Alemanha vencida.

Versalhes hoje

A Conferência de Paris pretendeu resolver a questão das minorias étnicas, mas o Tratado que elaborou em não poucos casos agravou-a. Hitler utilizou problemas de minorias para dar início ao incêndio da Europa e lançar-se ao seu desastrado projeto de conquista do mundo. Hitler “resolveu” o que chamou “a questão judaica”, exterminando os judeus. Em Yalta e Potsdam, Stalin teve mão livre para solucionar o problema à sua maneira: expulsou as minorias germânicas dos territórios que ocupavam para dentro das fronteiras da Alemanha vencida. Foi o caso dos alemães do Volga, da Prússia Oriental, da Silésia, e dos Sudetos. Decorrido quase um século do Tratado de Versalhes, as minorias étnicas continuam a ser problema para uma próspera União Europeia.

Os Catorze Pontos de Wilson ficaram na história como a primeira tentativa de um líder político moderno de “colocar a ética e valores universais no coração da política exterior de um país”. A invasão do Iraque, em 2003, foi explicada como meio de tornar o mundo livre para a democracia. Há quem afirme serem as questões morais parte da política dos Estados Unidos e de muitos outros países; outros acreditam que a linguagem moralista é empregada para mascarar a tradicional agenda da segurança nacional.

O Tratado de Versalhes nasceu com vícios que não lhe auguravam longa vida. Ainda assim, dispositivos seus permitiriam à França e à Grã-Bretanha frear a Alemanha na marcha para destruir o Tratado e fazer a guerra. “Se os franceses tivessem entrado na Renânia nessa ocasião, teríamos tido que nos retirar vergonhosamente”, comentou Hitler a propósito da débil força de três batalhões que executaram a operação. O general Wilhelm Keitel (1882-1946), em memórias escritas à sombra da forca a que fora condenado em Nuremberg, descreve os apelos de generais alemães para que Hitler suspendesse a invasão da Áustria, à vista do despreparo do Exército. Churchill, em suas memórias, narra a indignação do ditador ao constatar o grande número de viaturas das formações motorizadas alemãs em pane nas estradas que conduziam a Viena, tão má era sua qualidade operacional e deficiente a logística da Wehrmacht. Um simples decreto de mobilização do exército francês teria feito Hitler voltar atrás.

Passar por cima de tratados nunca preocupou os regimes autoritários e muito menos os totalitarismos comunista e fascista. Os tratados não são meros pedaços de papel, mas não resistem ao quadro geoestratégico em que foram gerados. Os exemplos são vários e já nos nossos dias os presidentes Ronald Reagan e George W. Bush ignoraram tratados proibidores de defesas antimísseis, assinados sob o fundamento de que tais defesas contribuem para a instabilidade na Europa. Os russos, conhecendo o fraco valor de tratados e de protestos contra a sua violação, cuidam de respostas mais sérias à iniciativa americana.

O maior legado da Liga das Nações teria sido a experiência para a constituição da sua sucessora, a onu. O senador Cabot Lodge Jr. nega isso. A historiadora Margaret Mac Millan é radical: “É difícil imaginar que tal projeto pôde ser levado a sério. Apenas um punhado de historiadores excêntricos ainda se dão ao trabalho de estudar a Liga das Nações”. Ao contrário da ldn, a onu sobrevive, mas com a saúde abalada por declarações – aliás, compreensíveis – de que os “Estados Unidos estão dispostos a agir sozinhos na defesa de seus interesses vitais”.

Suave em demasia, não suficientemente duro, assim continuam as avaliações extremas de Versalhes. O Tratado teve virtudes, mas fato é que, quanto a resultados, fica longe do Congresso de Viena (1815), que criou uma nova ordem de estabilidade na Europa após a derrota de Napoleão. De Viena resultou a Pax Britannica, um equilíbrio do poder capaz de dar à Europa cem anos de paz. Já os excessos e lacunas do Tratado de Versalhes contribuíram para a ascensão de Hitler e a deflagração da Segunda Guerra Mundial. As atuais crises dos Bálcãs e do Oriente Médio têm raízes no que foi decidido na Conferência de Paris.

Que valor terão os estudos de História? Muitos historiadores perguntam e Will & Ariel Durant respondem com outra indagação: “É possível que a história não tenha sentido, que nada nos ensine, e que o imenso passado tenha sido somente um fatigado ensaio dos erros que o futuro está destinado a reeditar em cenário e escala maiores?”

Em 1940, no mesmo local da floresta de Compiègne, no mesmo vagão de 1918, um cabo de Infantaria da Grande Guerra, Adolf Hitler, feito chanceler da Alemanha, assinou com os franceses um outro armistício – este pondo fim à campanha da França. Em 1945, as conferências de Yalta e Potsdam, com olhos na experiência de Versalhes, também pretenderam estabelecer uma paz duradoura e uma ordem nova e mais justa na Europa e no mundo. A solução da “questão alemã” – duas Alemanhas fracas – foi o primeiro passo para alcançar o grande objetivo. Mais uma vez, as realidades geoestratégicas fariam de tratados papéis de durabilidade precária.

A paz mais próxima da visada por Wilson não decorreria de princípios nem de tratados. Foi a arma nuclear que tornou impossível até agora a Terceira Guerra Mundial, assegurando uma paz que não será justa, como queria o presidente americano, mas promete ser duradoura. Uma paz que não evita conflitos localizados e de baixa intensidade, mas já permitiu a unificação política e econômica da Europa em grau surpreendente, promovida pelos tratados de Roma (1957) e de Maastricht (1992).


Luiz de Alencar Araripe: Coronel de Artilharia e de Estado-Maior do Exército (Reformado). Membro Titular do Instituto de História Militar e Geografia do Exército. Tradutor do clássico livro “Études sur le Combat”, de Ardant du Picq. Co-autor de História das guerras.

Fonte: ARARIPE, Luiz de Alencar. “TRATADO DE VERSALHES (1919)”. In: MAGNOLI, Demétrio (Org.) História da Paz. Editora Contexto.