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22 de dezembro de 1988 |Morte de Chico Mendes

22 de dezembro de 1988 |Morte de Chico Mendes

22 de dezembro de 1988 |Morte de Chico Mendes

A morte de Francisco Alves Mendes Filho, ocorrida em 22 de dezembro de 1988, na cidade de Xapuri, estava sob o signo da “morte anunciada”. Chico desconfiava que seria executado fora do Acre, em um ataque disfarçado de latrocínio ou outro motivo banal, evitando, assim, pairar suspeitas sobre a União Democrática Ruralista (udr) e autoridades, acumpliciadas com fazendeiros. Era de domínio público que expressivos políticos, policiais e um juiz interagiam com fazendeiros, conspirando para eliminar o sindicalista. Durante o ano de 1988, várias provas (fontes contidas no Dossiê Chico Mendes: cobertura da imprensa) foram enviadas por Chico Mendes às autoridades, para que se antecipassem aos seus perseguidores. Porém, os autos processuais não apontaram outros envolvidos em seu assassinato além de integrantes do clã dos Alves, Darli Alves da Silva e Darcy Alves Pereira, pai e filho, respectivamente, mandante e executor confesso.

Os fazendeiros do Acre queriam a morte de Chico Mendes porque ele liderava um sindicato que, através do empate, lhes impedia de especular terras e transformar a floresta em pasto.

O empate é uma estratégia de resistência pacífica organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Consiste em reunir seringueiros, preparar meticulosamente ações de abordagens para impedir o desmatamento. E também define funções específicas de certos integrantes do sindicato na vanguarda, como prevenção contra surpresas desagradáveis quando do contato com peões e jagunços. A experiência ensinara que, nessas ocasiões, negociações tensas poderiam gerar incidentes desnecessários. Seringueiros mobilizados caminhavam na floresta durante a noite em direção ao local do desmatamento. Em certas oportunidades, crianças e mulheres funcionavam como proteção, por ficarem entre os filiados ao sindicato e a polícia, que apoiava o desmatamento.

Por deliberação da diretoria do sindicato, Chico Mendes não comparecia a todo empate, cabendo a direção do evento aos delegados sindicais das áreas em litígio. Essa decisão visava preservar a vida de Chico, fortalecer politicamente os líderes locais e intensificar o espírito de união no sindicato.

Ainda que as negociações fossem demoradas e desgastantes, através dos empatesos seringueiros conseguiram expressivas vitórias. Nessas oportunidades ficou clara a incapacidade dos fazendeiros em lidar com aquele tipo de confronto. Passaram, então,  a nutrir ódio mortal contra Chico Mendes, que, tomado como “mentor intelectual” dos empates, fora jurado de morte.

Os fazendeiros ficaram ainda enfurecidos pelo fato de o governo federal ter atendido o pleito dos seringueiros criando as reservas extrativistas, que são áreas destinadas aos moradores da floresta que exploram os recursos naturais de forma sustentável. As áreas de terra desapropriadas para reserva tiveram o preço “aviltado” desfavorecendo os especuladores.

Mas um episódio em particular serviu de “justificativa” para o assassinato de Chico Mendes, como alegaram integrantes da udr. Um advogado do Instituto de Estudos da Amazônia (iea) localizou, na justiça do Paraná, um mandado de prisão por assassinato contra os irmãos Darli e Alvarino Alves da Silva, expedido pelo juiz da comarca de Umuarama. Tendo recebido cópia desse documento, Chico Mendes o remeteu ao superintendente regional de Polícia Federal/ac, Mauro Spósito, para que o cumprisse. Passado algum tempo, o referido mandado chegou à comarca de Xapuri, que tomou as medidas cabíveis, enviando-o para a Polícia Militar executar a missão, que recuou ao ser recebida à bala na propriedade dos Alves.

Para escapar de serem presos, os Alves fugiram de Ipanema para Umuarama, e de Umuarama para Xapuri. Chico Mendes teria interpretado essa nova fuga como decorrente do envolvimento de Mauro Spósito com os criminosos, daí acusá-lo de lhes informar sobre a existência do mandado de prisão, oferecendo elementos para resistência e fuga, conforme ocorrera. Mauro Spósito responde acusando Chico Mendes de ser informante da Polícia Federal. Esse confronto foi coberto pelos jornais entre os dias 2 a 6 de dezembro de 1988. Chico Mendes só voltaria ao noticiário em 23 de dezembro de 1988, morto.

O mandado de prisão executado naquelas circunstâncias transformou Chico num alvo fácil. Os inimigos dos seringueiros encontraram ali o álibi para caracterizar o crime de caráter pessoal, pelo qual se preservou a existência do aspecto de trama em rede gerado no interior de uma entidade representativa, que estava envolvida na busca de sua morte. Após o crime, as Polícias Civil e Militar promoveram barreiras nas rodovias, efetuaram prisões de jagunços, capatazes e fazendeiros a procura de provas que indicassem seus matadores.

Em episódio insólito, certo fazendeiro, nervoso ao ser preso, confessou na frente da imprensa ter participado das articulações do assassinato, cujo acerto correra numa mesa de carteado num cassino clandestino, no Club Rio Branco. Depois foi posto em liberdade e a informação não chegou a ser  investigada por autoridades policiais.

O presidente da udr no Acre afirmara ter conhecimento de que os irmãos Darli e Alvarino Alves estavam envolvidos no assassinato, que um dos filhos de Darli, o Oloci ou Aparecido, teria apertado o gatilho e que poderia apresentar-se a qualquer momento. Horas depois dessa declaração, Darcy Alves Pereira entregou-se à polícia, seguido de seu pai, Darli Alves da Silva. Realizaram as investigações, que consumaram as acusações restritas aos Alves.

A data do assassinato de Chico Mendes em 22 de dezembro é marcada pela rememoração dos ideais do líder sindical. O sindicato  mobiliza seus associados para um ritual de confirmação de seus ideários políticos; e, quando em vida, Chico era quem os externava de modo peculiar. Para tal fim é elaborada extensa programação que contempla desde atividades como venda de produtos de origem florestal, até baile dançante, show musical, projeção de vídeo, debates, reuniões e comícios. O ponto alto da programação ocorre com a procissão e visita à sepultura do líder sindical, no fim se reza uma missa campal no horário do assassinato: às 18h.

Em outros centros pelo país, a data é marcada por seminários, debates, palestras, filmes. Nos eventos anuais em torno da memória de Chico Mendes, alguns setores escolhem despi-lo de conteúdo político com formação e pensamento de esquerda; negam-lhe expressar a alteridade do povo que liderava. Preferem apresentá-lo apenas como líder ecológico que amava a floresta em si, vindo a morrer por ela.

Conhecemos um Chico Mendes que acreditava na defesa da floresta, compreendida em modelos forjados por homens da floresta, apontando estratégias situadas na identificação dos sujeitos com aquele meio ambiente. Assim, preservar a floresta significa também  preservar culturas de habitantes das matas, que não existem sem que a floresta seja por eles reconstruída para que possam existir através da preservação daquela que os acolhe.


Marcos Montysuma – Doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (puc-sp) e professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina (ufsc), é especialista em História Ambiental e História Oral. Foi assessor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri no período de 1983-1984, sob a presidência de Chico Mendes.