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12 de Outubro de 1492 | “Descoberta” da América

12 de Outubro de 1492 | “Descoberta” da América

Em 12 de outubro de 1492, o navegador genovês Cristóvão Colombo (1451-1506) aportou em uma ilha desconhecida, que ele pensava pertencer a um arquipélago adjacente ao Japão, comandando uma pequena frota de três navios – Santa Maria, Pinta e Niña – que, por cerca de dois meses, navegara pelo Atlântico.

12 de Outubro de 1492 | “Descoberta” da América

Colombo não sabia que havia chegado à América, já que esse continente era desconhecido dos europeus. A meta do navegador era atingir as Índias (Oriente), objetivo que julgou ter alcançado ao chegar a esse outro mundo. Mas em 1504, o navegador italiano, Américo Vespúcio, afirmou ser este um novo mundo, que ganhava, em sua homenagem, o nome de América.

O impacto de tal acontecimento não foi percebido logo de imediato, mas seus desdobramentos foram tão grandes que provocaram profundas e irreversíveis mudanças na ordem mundial. Como afirma o historiador mexicano Edmundo O’Gorman, os europeus inventaram a América à sua imagem e semelhança. Até aquela data, acreditava-se que o mundo estava dividido em três grandes partes: Europa, Ásia e África, desiguais em extensão e distintas em “índole”. Essa divisão foi elevada a uma categoria de conceito místico-geográfico, pois a Igreja Católica vinculou seu significado ao do Mistério da Santíssima Trindade e a outras alegorias referentes à perfeição do número três. Com a “descoberta” da América, esse preceito sofreu reformulações: nasceu e se firmou a ideia de que as novas terras formavam um conjunto unitário, a quarta parte, o Novo Mundo. Geograficamente, o território foi sendo incorporado ao globo, passando a integrar os mapas do século xvi. Mas, no cenário da História do Ocidente, a América era apresentada como lugar onde havia um vazio original, diferentemente das outras três porções do mundo que estavam preenchidas por um saber histórico tradicional. A América, no plano histórico, tinha apenas futuro, ou melhor, possibilidades a serem desenvolvidas, sob o olhar europeu. A noção de História Universal implícita nessa perspectiva admitia a coexistência de um Velho e um Novo mundos como distintos modos de ser na História.

Essa distinção supunha a elaboração da concepção de que os primeiros habitantes daquela parte do mundo, denominados de indígenas, não tinham História – para a qual só “entrariam” com a ajuda e direção dos europeus. Seu vasto território passava a “existir” apenas depois da “descoberta”. Portanto, a data de 12 de outubro de 1492 consagrou-se como o “início oficial” da História da América.

A figura de Cristóvão Colombo também desperta grande interesse. Ele pode ser entendido como um misto de homem medieval e moderno. Medieval, porque entusiasmado com os relatos fantásticos sobre o Oriente e, ao mesmo tempo, empenhado em defender a religião cristã. Moderno, porque conhecia as ciências: entendia de matemática, cartografia, cosmografia. Assim, o conhecimento da natureza e o domínio dos progressos técnicos e científicos encontravam-se com a crença na religião e na descrição do mundo maravilhoso do Oriente.

Desde bastante jovem, esse genovês, filho de tecelão, dedicara-se às navegações, participando inicialmente de viagens comerciais. Viveu dez anos em Portugal, importante centro de estudos náuticos. Foi, portanto, primeiramente em Portugal que Colombo buscou apoio financeiro para seu empreendimento, sendo este rejeitado pelo rei D. João II. Em 1485, ofereceu seus serviços ao trono espanhol, para os chamados Reis Católicos, Fernando e Isabel, que também negaram, em primeira instância, seu projeto.

As razões dos vetos dos monarcas eram várias, destacando-se os riscos envolvidos no empreendimento de uma viagem por rotas desconhecidas do Atlântico, conhecido como Mar Tenebroso, supostamente habitado por monstros e permeado de perigos sobrenaturais. Questionava-se a possibilidade da própria viagem, tendo em vista os debates sobre a forma do planeta. Pensava-se, à época, que era possível navegar apenas até um certo limite, depois do qual o mundo se precipitava num infinito abismo. Mas o navegador acreditava, como alguns pensadores gregos da Antiguidade, na esfericidade da Terra. Dessa maneira, julgava que navegando a oeste acabaria atingindo o Oriente. As condições exigidas por Colombo também eram vistas como entraves para a aceitação imediata de apoio pelos monarcas. Pelos serviços prestados, Colombo exigia, entre outras recompensas, o cargo vitalício e hereditário de almirante, de vice-rei e governador das futuras terras “descobertas” e um décimo de toda a riqueza encontrada.

Ao fim, entretanto, os Reis Católicos acabaram por apoiar a viagem, autorização oficialmente decretada pelas Capitulações de Santa Fé, em 17 de abril de 1492. A  tomada dessa decisão relacionava-se com as mesmas motivações que regeram as viagens portuguesas nos séculos xv e xvi: a busca de riquezas e a expansão da fé. Por outro lado, a Espanha estava preparada para o novo desafio proposto. Os longos conflitos internos que dificultaram o processo de constituição do Estado monárquico espanhol pareciam superados. Em 1492, pouco antes da viagem de Colombo, os muçulmanos, que haviam chegado à península ibérica no século viii, foram definitivamente expulsos da Espanha. O espírito cruzadista, posto em marcha na guerra contra os “mouros infiéis”, permanecia forte e o mesmo fervor cristão seria mobilizado na catequese dos habitantes do Novo Mundo.

Colombo realizou quatro viagens à América entre 1492 e 1504. Na primeira,  aportou em uma ilha das Bahamas, chamada pelos nativos de Guanahani, à qual deu o nome de São Salvador. Explorou, posteriormente, parte das atuais ilhas de Cuba e do Haiti. Nas outras viagens chegou a Martinica, Guadalupe, Porto Rico e Jamaica, atingiu a costa da Venezuela e navegou pelas costas da América Central.

À “descoberta” de Colombo sucedeu-se a conquista da América. Depois da exploração das Antilhas, os conquistadores espanhóis empreenderam expedições ao continente e dominaram os povos aí situados, com particular destaque para as duas grandes sociedades organizadas politicamente, a dos mexicas (astecas), na Mesoamérica, e a dos incas, na região andina. O encontro e o choque entre os ocidentais e os primeiros habitantes da América foram marcados por uma intensa violência, cujo saldo foi o submetimento das populações indígenas ao trabalho forçado, quando não à dizimação completa de diferentes grupos e etnias, pelas guerras, pelas epidemias e pelos maus-tratos.

A Europa tentou plasmar a América à sua imagem e semelhança. Foi bem-sucedida em grande parte: impôs sua língua, sua religião, sua cultura. Entretanto, absorveu muito das culturas aqui encontradas, produzindo misturas e mesclas. Na Europa, a existência do inesperado mundo indígena levantou indagações e produziu reflexões sobre problemas de ordem religiosa, filosófica e moral. As sociedades indígenas forneceram novos alimentos ao mundo, como o milho e a batata, e foram responsáveis por enorme produção de metais preciosos que enriqueceram algumas nações europeias.

A despeito da visão de que a América “surgiu” apenas depois da sua “descoberta” pelos europeus, já existiam no continente sociedades extremamente ricas e complexas. A impossibilidade de enxergá-las devi-damente deveu-se à forte carga eurocêntrica de que estavam imbuídos os conquistadores do Novo Mundo. Retirar da História da América esse olhar oficial é dar a ela um novo sentido. Um primeiro passo importante para isso é a realização da crítica da noção de “descoberta” da América pelos europeus.


Maria Ligia Prado é historiadora. Doutora em História Social pela USP. Professora titular de História da América Independente do Departamento de História da USP. Autora, entre outras obras, de América Latina no século XIX: telas, tramas e textos (também traduzido para o espanhol); O populismo na América Latina. Coautora de Reflexões sobre a democracia na América Latina, entre outros. Pela Contexto é autora do livro Nova História das Mulheres no Brasil e coautora de História da América Latina.

Stella Scatena Franco é historiadora. Doutora pela USP. Professora de História da América Independente do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/Guarulhos). Entre outros, é autora de Peregrinas de outrora: viajantes latino-americanas no século XIX e coautora do Dicionário de Datas da História do Brasil (Contexto).