Por Pedro Paulo A. Funari
O Império Romano continua tema superatual: uma notícia recente revelou que muitos homens pensam bastante na antiga Roma e em seu Império – e podemos supor que as mulheres tampouco se desinteressem no assunto. Isso pela presença do imaginário imperial romano em filmes, séries, jogos e muito mais, no Brasil e no mundo. Esse motivo já é suficiente para que os estudiosos de cursos superiores de História se atraiam pelo livro do professor de História Antiga da Universidade de São Paulo, Julio Magalhães de Oliveira. Assim como, claro, as tantas professoras e os tantos professores de ensino fundamental e médio que lidam com o Império Romano nas salas de aula.
Mas o que faz dessa obra uma referência tão inovadora e atual?
Muita coisa, a começar pela sua abordagem: a História é vista a partir de baixo e considerada libertadora e crítica. Pessoas comuns, derrotados, escravizados, dominados e mulheres, todos são analisados como protagonistas, não só como oprimidos e sem ação. Outro diferencial do livro é a exposição de diferentes pontos de vista para que quem o leia possa formular suas próprias conclusões. Além disso, o autor valoriza tanto o estudo da documentação proveniente da tradição textual, os autores antigos que chegaram até nós, quanto as evidências materiais e arqueológicas, em constante aumento. A obra apresenta inúmeros fragmentos textuais, em tradução do original ou conferidas pelo autor, inclusive inscrições. A cultura material, proveniente da Arqueologia, apresenta-se não apenas como complementar ou confirmadora das fontes textuais, mas como meio de acesso a uma infinidade de aspectos pouco considerados, como no caso das relações econômicas.

A busca pelo Império Romano começa nos primórdios de Roma, no início do primeiro milênio antes de Cristo. Neste aspecto, a metade inicial do livro trata desses séculos anteriores ao Principado, que começa em 31 a.C. Importante, pois tudo sempre se inicia muito antes e continua, aliás, muito depois. O Império Romano ainda inspira e amedronta, dos Estados Unidos (Capitólio) à Rússia (terceira Roma, após Roma e Constantinopla). No livro, o autor lembra do conceito de Destino Manifesto, tratado por Leandro Karnal em História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, também da Contexto. O Destino Manifesto seria a vocação para conquistas militares. Roma e Estados Unidos, e vice-versa. O Império (domínio) romano aparece como o resultado de um mecanismo de cooptação de elites e subjugação forçada. Resistências ligam-se a esperanças populares, protagonismo dos dominados (e dominadas) e processos de crioulização, hibridização e mestiçagem. Na mesma linha, trata da vida cotidiana, do ciclo da vida: infância, vida adulta, velhice e morte. Amor e sexualidade, mundo do trabalho, lazer, saúde e doença são outros temas do maior interesse esmiuçados.
O Império Romano Tardio ganha considerações ao final do livro, discutindo-se o conceito de crise do século III (235-285 d.C.) e a exclusão dos senadores da vida pública, o que transformou a sociedade romana como um todo. O autor destaca que houve, assim, uma ampliação da participação política dos setores populares e combate à ideia de que o Império Romano foi destruído por invasões – argumento hoje muito usado para servir aos propósitos de extremistas de direita. Julio Magalhães de Oliveira considera que o papado de Gregório Magno (590-604) marcou o fim da Roma Antiga e do controle perene da cidade de Roma pelos papas.
Este livro é uma joia, lapidada não tanto para ser ostentada quanto para fazer pensar o passado e o presente e, com isso, o futuro. O que há de vir será resultado de nossas ações, e entender o Império Romano pode contribuir para que, estudantes que somos, usemos o passado para compreender melhor o presente e, para dessa forma, agir para um futuro diferente.
Pedro Paulo Funari é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP), além de pesquisador associado de universidades do Brasil e do exterior. Pela Contexto, é autor de Grécia e Roma, Arqueologia, Pré-história do Brasil; coautor de A temática indígena na escola, História na sala de aula, História da cidadania, História das guerras, Fontes históricas e Novos combates pela História; e organizador das obras As religiões que o mundo esqueceu e Turismo e patrimônio cultural.

