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Manual de Análise do Discurso

Sobre o Manual de Análise do Discurso

Por Nelson Barros da Costa

Manual de Análise do Discurso é o resultado da reescritura de um texto elaborado para auxiliar minhas aulas na disciplina Análise do Discurso na graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde sou professor titular. Mas ele é resultado também da minha própria trajetória de aprendiz da disciplina, percurso iniciado em meados dos anos 1980 que, certamente, perdura ainda hoje. Nessa época, “quase tudo era mato” no mercado editorial sobre AD. Nomes como Eni Orlandi, Haquira Osakabe, Vanderley Geraldi, Carlos Alberto Faraco, Sírio Possenti e outros davam notícia de que ventos novos no campo da linguística vinham junto com a aragem democrática que soprava no país.

Quanto a mim, formado em Letras (Francês) e vindo de uma militância soft no movimento estudantil e de um curso de especialização voltado para o ensino do português, iniciava um mestrado em educação interessado em articular de maneira crítica linguagem, sociedade e educação. Depois de transitar por autores que me encaminhavam para o ensino formal da escrita, acabei descobrindo Bakhtin e, com ele, um modo de encarar a linguagem absolutamente inovador em relação às perspectivas estruturalistas que dominaram minha formação. Isso me encaminhou a pensar que a linguagem, o discurso, não é matéria bruta que se aprimora na escola, mas é pão simbólico de cada dia, que deveria estar na mesa de todos. Alguns o consomem sob forma de refinados brioches recheados dos mais variados patês e geleias; outros o engolem duro e seco. Desse modo, tateando diversos autores marxistas reflexões acerca da linguagem, compus a parte teórica da dissertação sobre a possibilidade de pensar a linguagem à luz de uma teoria materialista da sociedade e da história. Na parte analítica, analiso a relação entre os discursos proferidos em uma manifestação de trabalhadores em homenagem ao dia 1º de maio e o contexto histórico-social de produção desses discursos. 

Quase dez anos depois, nos anos finais da década de 1990, sob a égide do governo Fernando Henrique Cardoso e já professor universitário, parto para o doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pude, nesse período, estudar mais sistemática e formalmente Análise do Discurso, o que até então se dava de modo autodidata. Por outro lado, com as preocupações político-ideológicas um tanto arrefecidas, voltei minhas reflexões para aquilo que, desde a mais tenra idade, me apaixona: a canção popular brasileira. Quanto ao aspecto teórico, foi nesse período que conheci a perspectiva do prof. Dominique Maingueneau que, generosamente, aceitou participar da minha qualificação. Minha tese, que mais tarde publiquei sob o título Música popular, discurso e sociedade: analisando o discurso literomusical brasileiro, consiste em uma tentativa de analisar a “Música Popular Brasileira” enquanto prática discursiva tendo como base a orientação que esse teórico francês propõe para a Análise do Discurso. 

Manual de Análise do Discurso reflete naturalmente minhas pesquisas atuais, mas também essa história. Ele adota uma perspectiva discursiva que eu diria microcrítica, distanciando-se da perspectiva estruturalista e focado na articulação entre discurso e condições ou contexto de produção. Em vez de supor que uma clivagem socioeconômica determina de modo absoluto e monódico a totalidade das diferenças entre as posições discursivas da sociedade encaminhando-as a uma bipolaridade  [(dominante x dominado), (exploradores x explorados), (burgueses x proletários)], prefere-se pensar a miríade de configurações discursivas produzida pela relação constitutiva entre discurso e contexto discursivo e atravessada por relações de poder de muitas naturezas, não apenas econômicas. Acreditamos que esse campo de investigação de modo algum exclui as categorias macrossociais; ao contrário, enriquecem-nas.

Nos termos de Maingueneau, é como se, em vez de pensar a enunciação do sujeito como imediatamente condicionada pela cena englobante em que ele fala (por exemplo, um operário e o contexto econômico neoliberal que ele vivencia), eu tenha passado a preferir focar o espaço discursivo constituído pela relação entre o sujeito falante e as instituições de fala que o constrangem. 

Manual de Análise do Discurso

Se pensarmos nesse mesmo operário em um chão de fábrica, essa perspectiva propõe que esse trabalhador, cuja condição última é marcada por sua relação de exploração em um sistema econômico, além de ser interpelado material e ideologicamente como operário, vendedor de sua força de trabalho ao patrão, é interpelado como um “leitor e ouvinte colaborativo” por diversos gêneros discursivos que funcionam como dispositivos mediadores entre ele e os sujeitos que o exploram, tais como jornais de fábrica, manuais de instruções de máquinas, ordens e instruções gerenciais, comunicados e propagandas institucionais etc. Tais gêneros estão impregnados de um “mundo ético” para o qual ele é convidado a entrar: o universo de valores, comportamentos e modos de ser que um discurso faz emergir e no qual o ethos do enunciador se torna inteligível. Os discursos não se limitam a transmitir informações: eles configuram um determinado modo de existência social. De um lado, indicam quem fala: que tipo de sujeito é esse, como se comporta, qual é seu tom de voz, sua presença corporal e os valores que orientam suas ações, bem como a comunidade à qual se vincula. De outro, sugerem ao interlocutor que imagem de si deve construir para integrar-se simbolicamente a esse universo. No caso do discurso empresarial contemporâneo, por exemplo, projeta-se um mundo ético pautado pela eficiência, pela inovação e pela produtividade, buscando envolver o leitor ou ouvinte nesse conjunto de valores, estilos de vida e condutas socialmente legitimadas, em franca compatibilidade com a reprodução do sistema capitalista.

Outro conceito de mediação da perspectiva teórica que sustenta o Manual é o de cenário da enunciação. Segundo Maingueneau, os gêneros do discurso, dispositivos enunciativos graças aos quais os sujeitos interagem em grande parte das situações, supõem posições virtuais legitimadas: um eu aí fala para um tu atuando em cenas mais ou menos pré-definidas. Supondo que essa fala se ancora necessariamente em um tempo-espaço significado, temos uma cena enunciativa que o autor denomina de cena genérica. Ocorre que um gênero não se realiza no abstrato. Ele está vinculado à jusante pela textualidade que assume na situação de discurso em que ele se materializa. No dizer de Maingueneau, essa materialização também configura uma cena, por ele denominada de cenografia. Ao mesmo tempo, a cena genérica está vinculada à montante ao tipo de discurso numa cena englobante que possibilita as cenas anteriores, em um jogo de mútua legitimação. Assim, articulam-se cenografia, cena genérica e cena englobante, instaurando um dispositivo de enunciação que valida e legitima a instituição discursiva que o torna possível. 

Pode-se perceber que as cenas não são meras representações de situações enunciativas. Todo discurso, ao se manifestar, busca agir sobre o outro por meio da cena de enunciação que o torna legítimo e que ele legitima. A cenografia não é um quadro externo e preexistente no qual o discurso se instala. Pelo contrário, é a enunciação, ao se desenvolver, que, por meio da cenografia, se empenha em construir progressivamente o dispositivo que sustenta a própria fala. Assim, a partir desse ponto de vista, perguntar-se pelo “conteúdo” de um texto ou pelas ideias que ele nos transmite são questões que passam ao largo do que é o discurso. O discurso não é um dispositivo de transmissão de ideias ou um invólucro de dado conteúdo que um sujeito enunciador pretendeu comunicar verbalmente: toda enunciação encena uma situação de fala construindo uma identidade para quem fala, convidando ou convocando o coenunciador (quem lê ou escuta) a assumir determinada posição em um universo de valores e modos de vida.

Como se não bastasse tal complexidade, M. Bakhtin nos mostra que toda a linguagem é fundamentalmente relacional: nenhum enunciado existe de forma isolada. Cada ato de fala ou de escrita responde a enunciados anteriores e se orienta para possíveis respostas futuras. Assim, todo discurso está inserido em uma rede contínua de vozes, posições e valores sociais. Para o autor russo e seu círculo de intelectuais, as palavras não são neutras; elas chegam ao falante já carregadas de usos, sentidos e avaliações produzidos por outros falantes. Ao falar, o sujeito inevitavelmente, através de diversos esquemas intertextuais e interdiscursivos, dialoga com essas vozes, podendo retomá-las, contestá-las, reformulá-las ou ironizá-las. Desse modo, o sentido de um enunciado não está apenas no que o locutor pretende dizer, mas no confronto e na interação entre diferentes vozes sociais presentes no discurso. Os sentidos são sempre únicos, dinâmicos e históricos, resultantes da interação entre sujeitos em contextos sociais concretos. A linguagem é um espaço de disputa e negociação de sentidos, no qual diferentes perspectivas e valores se encontram e se transformam continuamente. 

Munido dessas ferramentas teóricas, o livro procura mostrar que elas oferecem um instrumento eficaz de análise ao aplicá-las a diferentes discursos que circulam no cotidiano: anúncios publicitários, letras de músicas, poemas, excertos de peças teatrais, capas de livros, vídeos do YouTube, reportagens, pronunciamentos políticos, receitas culinárias, entre outros.

Foi isso que aprendi. E é isso que tento mostrar nesse livrinho. Alguém já falou que professor é um aprendiz cheio de esperança de que outros aprendam o que ele aprendeu ou está aprendendo. Mas a situação do livro é ainda mais esperançosa. O professor pode enxergar, sentir e até medir nos alunos o resultado de suas aulas. Não tenho como saber se estou atingindo meus objetivos. Só me resta esperançar.


Nelson Barros da Costa é professor titular do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Tem doutorado em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestrado em Educação Brasileira e graduação em Letras pela UFC. Pesquisa música brasileira e é também escritor e artista plástico. É um dos organizadores de As margens do discurso, que reúne textos de Dominique Maingueneau.

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