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Sob a sombra da suástica: a França ocupada

Em uma manhã de junho de 1940, o curioso visitante percorreu rapidamente alguns dos monumentos mais emblemáticos de Paris: visitou a Ópera, a igreja da Madeleine, o Arco do Triunfo, a esplanada do Trocadéro, com sua clássica vista para a Torre Eiffel, e os Inválidos, onde parou diante do túmulo de Napoleão. Passou também pelo Jardim de Luxemburgo e pelo Panthéon, assim como pela catedral de Notre-Dame, pela Sainte-Chapelle, pela Place des Vosges e pelo Louvre. Ao final, visitou a basílica do Sacré-Coeur, em Montmartre, e retornou mais uma vez à Ópera. Com ele estavam arquitetos, um escultor e muitos oficiais. Cada parada foi cuidadosamente registrada, fotografada e filmada. A “visita relâmpago” percorreu uma Paris quase deserta e durou menos de três horas. Foi a única vez que Adolf Hitler pôs os pés na Cidade Luz.

Sob a sombra da suástica: a França ocupada

Se ainda existe alguma controvérsia sobre a data em que isso ocorreu (teria sido em 23 de junho, logo depois da assinatura do armistício franco-alemão, ou no dia 28, aniversário de 21 anos da assinatura do Tratado de Versalhes?), o fato é que Hitler sabia que essas fotografias percorreriam o mundo e que causariam grande efeito. O pintor frustrado encantou-se com a “mais bela cidade do mundo”, como qualquer turista, mas também calculou tudo nos mínimos detalhes, como uma grande operação de propaganda. Ele avisava ao mundo que a França agora era uma possessão alemã. Essa foi uma das formas de marcar o início da ocupação militar. Ela duraria mais de quatro anos.

Como foi possível que a pátria das Luzes, da Revolução Francesa e dos direitos humanos tenha sucumbido ao avanço fulminante do Terceiro Reich? E como, em meio a tudo isso, dirigentes franceses ainda instauraram uma ditadura colaboracionista? Essas são perguntas centrais deste livro, que lança luz sobre uma história ainda pouco estudada no Brasil: a complexa situação da França durante o segundo conflito mundial, no contexto da Ocupação nazista e do Regime de Vichy.

Mas, por que estudar a situação da França e não da Bélgica, dos Países Baixos ou da Noruega, países que também foram invadidos e ocupados pelos nazistas no mesmo período? Porque a derrota e a rendição de uma potência imperial como a França, que se desenrolaram em poucas semanas, continuam sendo um evento sem precedentes entre os grandes Estados contemporâneos. E também porque a França foi o único país da Europa Ocidental que, após ser derrotado militarmente, continuou sendo dirigido por um regime que, embora legal, optou por instaurar uma ditadura guiada pela colaboração com o ocupante nazista. Trata-se aqui de compreender os fatores que permitiram tais desfechos, assim como os diversos posicionamentos possíveis diante deles. Sem perder de vista as experiências individuais que conferem novas dimensões à narrativa histórica, articulam-se neste livro as decisões institucionais aos dilemas coletivos, observando a guerra e a ocupação de forma concreta e cotidiana.

Mesmo que todos os franceses tenham sido afetados de alguma forma pelos acontecimentos desse período, eles o foram de formas profundamente desiguais. A Segunda Guerra Mundial, e sua natureza hiperbólica, foi uma guerra racista, seletiva, que atingiu de forma assimétrica os corpos, as classes e as regiões do país. E isso se refletiu também na constelação de vítimas, além das heranças políticas e morais com as quais a França teve que lidar a partir de 1945.

A guerra, para os franceses, não começou nem terminou ao mesmo tempo, e tampouco foi vivida da mesma maneira. É necessário pensar nas múltiplas cronologias que o conflito assumiu na França: se as hostilidades começaram em setembro de 1939, para a maioria dos franceses a guerra só foi realmente vivida como tal em maio de 1940, com a ofensiva alemã e a derrota militar vertiginosa que se sucedeu. Já para muitos dos habitantes da chamada “zona livre”, o cotidiano da Ocupação só se impôs após novembro de 1942, quando todo o território foi de fato ocupado. Do mesmo modo, se o fim da guerra na Europa se deu em 8 de maio de 1945, para muitos franceses foram as comemorações da Liberação do país em 1944 que ficaram na memória.

Este livro propõe uma leitura crítica de um período que ainda hoje mobiliza debates intensos, na França e fora dela. Estudar esse passado à luz da História é essencial também para problematizar o tempo presente. Trata-se de um episódio emblemático das tensões entre memória e história, entre Colaboração e Resistência, entre o Estado e os indivíduos, que nos permite apreender as engrenagens sociais e políticas dos regimes autoritários, seus dispositivos de exclusão e repressão e os dilemas enfrentados por aqueles que viveram sob seu controle. É igualmente uma chave importante para pensar sobre mecanismos de adesão e contestação em períodos de exceção, assim como os impactos das guerras sobre as populações civis. Revisitar a história da França entre 1939 e 1945 é, ainda, uma oportunidade para refletir sobre as fragilidades institucionais e os riscos que ameaçam as sociedades democráticas em tempos de crise.

Sob a sombra da suástica: a França ocupada

Franciele Becher é professora, historiadora, mestra em História pela UFRGS e doutora em História pela Université Paris 8, vinculada ao Institut d’Histoire du Temps Présent (IHTP). Especialista na história da infância e da juventude em contextos de guerra e de autoritarismo, desenvolveu uma tese sobre a experiência adolescente da Segunda Guerra Mundial, no contexto da Ocupação nazista da França. É curadora científica de uma coleção de documentos desse período, no âmbito do programa Réfugier – Enfance, Violence, Exil (R-EVE).

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