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Professor só dá aula?

Por Ada Magaly Matias Brasileiro e Viviane Raposo Pimenta

Com a frase “Professor só dá aula?”, nós, Ada Brasileiro e Viviane Pimenta, intitulamos o livro que é fruto de um trabalho que temos construído ao longo de 8 anos sobre métier docente e que foi publicado pela Editora Contexto. Como formadoras de professores, estamos imersas nas discussões sobre a formação docente e sobre o apagão de professores, que se relacionam diretamente à desvalorização profissional.

Quando nos debruçamos nesse tema, chegamos a duas constatações básicas que atravessam todas essas questões: a primeira é que o trabalho do professor é essencialmente perpassado pela linguagem, sendo que o real da nossa atividade acontece por meio da produção de textos orais, escritos e multimodais representativos de gêneros do discurso profissional docente; a segunda, decorrente da primeira, é que, sendo o trabalho linguagem, ele é socialmente invisível. Tal invisibilidade contribui para a desvalorização profissional. Afinal, o que não é visto não é valorizado. É como se não existisse.

Você já parou pra pensar sobre o tanto que o professor faz antes e depois de uma aula? Planejamento, curadoria, diagnósticos, feedbacks, relatórios… Já refletiu sobre o fato de que as gestões de escolas e universidades, de projetos… são majoritariamente feitas por nós, professores? Que todo o trabalho de pesquisa de um professor para dar sua aula ou para ampliar o conhecimento científico – elaborar projetos, orientar os alunos, negociar prazos, orçamentos e cronogramas – é trabalho silencioso, que raramente aparece?

No livro Professor só dá aula?, nós provocamos o leitor a compreender a dimensão e a importância do trabalho do professor. Buscamos nomear esse trabalho invisível – apresentando os 260 gêneros do discurso profissional que inventariamos ao longo do percurso, entrevistando professores de todos os níveis, redes e modalidades de ensino – e também categorizar esses gêneros profissionais (ou modelos de textos) em tipos de atividades que exercemos (ensino, pesquisa, extensão, gestão, formação continuada e representação profissional).

Nessa mesma direção de dar nome ao invisível trabalho do professor, buscamos apresentar as diversas funções discursivas que um mesmo texto pode exercer, a depender da finalidade para a qual ele foi mobilizado, funções como comunicação interpessoal, planejamento, ensino/aprendizagem, avaliação, documentação e negociação, que demandam do professor tempo e energia.

Além disso, esforçamo-nos para entender o contínuo existente do escrito para o oral, passando pelos textos multimodais, que produzimos cotidianamente para exercer o nosso trabalho. Essa perspectiva nos mostra o quanto nós precisamos adaptar e reconfigurar o nosso trabalho a depender do contexto educacional e das finalidades interacionais.

Finalizamos o livro com um toque didático, trazendo orientações particulares para a produção de vários gêneros profissionais mobilizados no cotidiano do professor, com vistas à formação e à profissionalização docente, independentemente da área de atuação.

Com esse trabalho, buscamos contribuir para dar visibilidade ao que o professor realmente faz, avançando, assim, na valorização docente. Então, se você se interessou pelo tema ou se é professor em formação continuada ou inicial, pesquisador, representante sindical, gestor público ou algum agente de políticas de valorização docente e gostaria de conhecer mais sobre o nosso livro, ele está disponível no site da Contexto e poderá fortalecer os seus argumentos acerca do métier docente para uma legítima defesa desse trabalhador.

Será um enorme prazer continuar essa interlocução com você, leitor!


Ada Magaly Matias Brasileiro é linguista e pedagoga; especialista, mestra e doutora em Letras: Linguística e Língua Portuguesa; pós-doutora em Linguística (Universidade de Lorraine-França). É professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP-MG), onde atua na Graduação e na Pós-Graduação em Letras. Estuda métodos científicos, letramento acadêmico-científico, ensino de Língua Portuguesa, interação na sala de aula, métier e formação docente. Entre suas publicações, destaca-se Como escrever textos acadêmicos e científicos, publicado pela Contexto. É membro fundadora do Laboratório de Linguagens (LALIN-ICHS-UFOP), líder do Grupo de Estudos em Letramentos e Profissionalização do Professor (GELP), atuante e ativista na docência e na formação docente.

Viviane Raposo Pimenta é doutora em Letras, graduada em Letras Português – Inglês, Direito e Pedagogia. Realizou pesquisa de pós-doutoramento na Université de Lorraine em Nancy sobre o tema “Linguagem como trabalho do professor do ensino superior”. É professora no Departamento de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto nos cursos de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras. Atuou no Curso Especialização em Práticas Pedagógicas, juntamente com a professora Márcia Ambrósio, com a qual publicou livros da área. Coordena programas e projetos de extensão, ensino e pesquisa nas áreas de ensino e aprendizagem de línguas, formação docente, práticas pedagógicas, métier docente e letramento acadêmico-científico.
É vice-líder do Grupo de Estudos em Letramento e Profissionalização do Professor – GELP.

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