Que a educação é a base para o desenvolvimento da sociedade e para um futuro melhor, ninguém nega. Nós, professoras que somos, nas precisas palavras de Ada e Viviane, aquelas que “teimam em libertar pensamentos”, ouvimos tais ideias cotidianamente em nosso campo profissional. Contudo, o que efetivamente isso significa, se ao longo dos anos vivenciamos ataques às universidades e às escolas, corte de verbas para a educação, evasão escolar e, principalmente, desvalorização docente e descaso com o seu trabalho?
Falar do trabalho do professor é uma tarefa da maior complexidade, que requer muito conhecimento não só sobre o seu fazer cotidiano, mas sobre sua formação, que, no Brasil, já passou por variadas transformações. Das diversas mudanças já feitas, mas ainda necessárias nos cursos de licenciatura, identifico que a relação teoria e prática ainda é um desafio para os cursos de graduação, assim como para a formação continuada. E para tratar dessa relação e articulá-la a esta obra trago aqui memórias do início da minha entrada no mundo do trabalho docente para suscitar o debate.

Quando iniciei minha trajetória na docência, na década de 1990, minha maior aflição foi descobrir o real trabalho do professor; já na escola, recém-graduada, um sem-número de atividades me “engoliram” dentro e fora da instituição: preparação de aulas, provas, preenchimento de formulários e diários, escrita de documentos, realização de variadas reuniões com muitas pessoas da comunidade escolar (pais, professores, alunos, coordenadores, profissionais de secretaria de educação), além de participação em assembleias e conselhos, análise de livros didáticos, oferta de minicursos e palestras em escolas… Era uma série assustadora de tarefas para dar conta! Todas requisitavam não só um conhecimento teórico e prático, mas também elementos de uma vivência que eu não tinha, com posicionamentos firmes, decisões respaldadas em legislação e conhecimento dos “modos de fazer” daquela prática profissional. Enquanto o “sufoco” não passava, eu buscava orientações com ex-professores da universidade com quem ainda tinha contato, mas também em livros e materiais e, principalmente, com os docentes já experientes nas escolas onde iniciei minhas práticas profissionais. E esses colegas mais experientes foram os que “me inseriram” verdadeiramente na carreira, me ensinaram a trabalhar, me acolheram e compartilharam comigo um elemento diferencial: suas experiências. Foi através da interação com esses docentes, pela linguagem do trabalho, que aprendi a ser professora, que continuei construindo minha identidade profissional.
Naquele momento, eu não tinha elementos teóricos para compreender isso. É o que Ada Brasileiro e Viviane Pimenta permitem-nos enxergar nesta obra: o que faz um professor e qual é o papel da linguagem nessas tarefas? Se este livro tivesse feito parte da minha formação inicial, talvez a angústia não tivesse sido tão intensa.
Infelizmente, a percepção sobre o verdadeiro trabalho de um professor chegou tardiamente na minha vida, após o meu período de licenciatura. As situações aflitivas vivenciadas no início da carreira me levaram a questionar a minha formação inicial: um estranhamento me permitiu compreender que a então licenciatura em Letras, nos anos 1990, tinha uma enorme distância da prática profissional, sobretudo em escolas, destino comum para licenciandos.
As dificuldades com os primeiros anos de profissão podem ser derivadas, dentre possíveis motivos, de um desconhecimento do trabalho real do professor, objeto deste livro das parceiras de trabalho Ada e Vivi, como carinhosamente podemos chamá-las. A frase originária do senso comum que encabeça o título desta obra costuma aparecer em nossas interações com familiares e amigos (como já aconteceu tantas vezes comigo): professor só dá aula, trabalha metade do tempo que outros profissionais, tem duas férias por ano, só precisa preparar aula uma vez e repetir o conteúdo nas demais turmas… Essas impressões pessoais equivocadas revelam como a população está distante das pesquisas sobre educação no país e do cotidiano do professor.
A obra de Ada Brasileiro e Viviane Pimenta possibilita – através da compreensão de variados conceitos, como gênero, métier, funções discursivas – entender o que faz um professor: não só o trabalho de sala de aula, o momento da interação com os alunos, constitui nosso trabalho. Para chegar lá, um sem-número de atividades são realizadas: selecionar conteúdos, ler teorias, determinar progressão de conceitos, buscar textos “ideais” que ilustram as definições, elaborar exercícios criativos que prendam a atenção do aluno, selecionar vídeos e por aí vai. Após o momento da aula, avaliamos se o desenvolvimento foi bem-sucedido, se o conhecimento foi compreendido pelos estudantes, se foi atrativo, interessante e compreensível. Além disso, corrigimos provas e trabalhos, adaptamos e recriamos atividades, comparamos o desempenho de um aluno em vários momentos do ano para avaliar sua evolução, enfim! Temos um trabalho constante que extrapola o lugar da sala de aula.
Para além da sala de aula, há um trabalho “invisível”, nas palavras das autoras, que realizamos cotidianamente; invisível porque quase ninguém vê e, sem ver, não há compreensão, nem reconhecimento e muito menos remuneração! É nesses termos que esta obra contribui com o leitor, revelando facetas da atividade do docente que nem sequer são consideradas trabalho. Nossa atividade profissional parece infindável: são tantas e tantas que é difícil nomear, determinar e caracterizar o que fazemos. É exatamente isso que as autoras fazem: há anos, elas vêm organizando, sistematizando, teorizando, inventariando o que efetivamente faz um professor, trazendo para o público esta obra necessária que descortina nosso ofício. Dar visibilidade para o nosso trabalho significa dar vida e autoria para o que realizamos, elemento necessário em prol da nossa justa valorização.

Descortinar o trabalho do professor, este profissional tão desvalorizado, sobretudo nos últimos anos, é contribuir com o reconhecimento de seu trabalho. Esse é o verdadeiro sentido de “educação para o desenvolvimento da sociedade e para um futuro melhor”: é na perspectiva transformadora que a palavra desenvolvimento deve ganhar espaço, por meio do reconhecimento, da valorização e do respeito ao nosso verdadeiro trabalho.
O mérito de Ada Brasileiro e Viviane Pimenta, dentre tantos que extrapolam estas páginas iniciais, é contribuir com uma formação mais humanizada, fazendo-nos vislumbrar a minúcia do dia a dia. Que possamos compreender a linguagem do/no trabalho docente, analisar sua função de construtora das identidades e usufruir, em cursos de licenciatura e programas de pós-graduação, desta obra tecida há anos, que traz uma detalhada, competente e necessária pesquisa.
Tânia Guedes Magalhães
Juiz de Fora, outubro de 2025

