Todo mundo já passou por isso: você tropeça, bate o dedinho do pé na quina de um móvel e antes mesmo de sentir a dor solta um sonoro “caralho!”. Curiosamente, ninguém grita “que inconveniente!” ou “ai, que desagradável!”. Não. O que sai mesmo é um palavrão. E repare que funciona: a dor parece diminuir, o momento ganha drama e quem está por perto entende imediatamente a gravidade da situação. Dizer um simples “ai” certamente não daria conta do recado.
Muitas vezes, o que os palavrões fazem é intensificar emoções e julgamentos, e até criar laços. Eles não estão aí só para xingar ou chocar, embora também façam isso muito bem. Os palavrões servem para enfatizar, fortalecer relações, aliviar tensão, mostrar surpresa, raiva, admiração ou até carinho. Dá para chamar alguém de “seu filho da puta” com afeto genuíno, e isso não é nada trivial.
Por mais que muita gente torça o nariz, os palavrões estão por toda parte: nas conversas do dia a dia, nas músicas, nos filmes, nas redes sociais, na televisão e até em discursos políticos e religiosos. Os palavrões não são exclusividade de pessoas “mal-educadas”, eles atravessam classes sociais, níveis de escolaridade e contextos formais e informais. Em outras palavras, falar palavrão é profundamente humano.
Este livro parte justamente dessa constatação: se os palavrões são tão comuns, talvez seja uma boa ideia levá-los a sério. Aqui, vamos mostrar que essas palavras consideradas “feias” têm um funcionamento surpreendentemente sofisticado. Elas obedecem a regras, entram em construções específicas e desempenham papéis bem definidos na estrutura da língua.
Ao longo dos capítulos deste livro, analisamos palavrões do português brasileiro contemporâneo para entender como eles funcionam, o que revelam sobre nossos tabus e valores e por que são tão eficazes para dizer exatamente o que queremos dizer – às vezes melhor do que qualquer palavrinha “educada”. No fim das contas, estudar palavrões é uma maneira divertida, provocadora e cientificamente séria de entender como a língua funciona. É uma parte essencial das línguas, que, via de regra, está longe dos manuais de língua e de gramáticas ou dicionários mais tradicionais. E, convenhamos, é um tema legal pra caralho!

Nosso percurso para entender os palavrões se distribui em nove capítulos. O primeiro capítulo apresenta uma discussão sobre o que são palavrões, suas várias funções, o que significa ofender, entre outras questões. O segundo e o terceiro capítulos trazem algumas das ferramentas que usaremos no restante do livro para entender o funcionamento dos palavrões dentro da estrutura da língua.
Os capítulos de 4 a 7 trazem análises de construções específicas do português brasileiro.
As estruturas que analisaremos, na ordem, são as seguintes: ‘essa bosta de TV desligou de novo’ (capítulo “Você já achou a bosta da chave?”); ‘eu comi um puta bolo gostoso’ (capítulo “Um puta capítulo legal!”); ‘tá passando um filme chato pra caralho no cinema’ (capítulo “Um capítulo interessante pra caralho”); e ‘tem uma música foda na playlist do João’ ou ‘tem uma música do caralho na playlist do João’ (capítulo “Um capítulo foda! Ou do cacete!”).
Na sequência, “Um capítulo ofensivo” lida com injúrias, que são certamente o tipo de palavra atualmente mais complicado e ofensivo no português brasileiro: são palavras que ofendem pessoas e grupos de pessoas apelando para sua origem geográfica, sua orientação sexual, o formato do seu corpo, entre outras características, muitas vezes intrínsecas, das pessoas. Não por acaso, injúrias são palavras passíveis de condenação criminal, e seu estudo, sem sombra de dúvida, extremamente necessário, deve ser feito com cuidado.
Para encerrar, no capítulo “Oh, fuck! Palavrões e sua tradução” discutimos os palavrões e sua tradução, um tema bastante interessante quando consideramos a demanda atualmente enorme criada por filmes, séries e jogos dublados e legendados que envolvem palavrões e expressões tabus de outras línguas. Vamos explorar alguns dos desafios colocados pela tradução de palavrões e trazer algumas das razões de tal tarefa estar longe de ser óbvia. Ainda nesse mesmo capítulo, mencionaremos brevemente o funcionamento de palavrões em Libras, afinal, traduzir os palavrões de uma língua oral para uma língua sinalizada (e vice-versa) envolve seus próprios desafios.

Para quem quiser se aprofundar mais, deixamos sugestões de leitura que ficam no final de cada um dos capítulos deste livro e elaboramos uma série de “boxes” destacados do texto principal que trazem curiosidades, detalhes técnicos e demais informações sobre alguns dos pontos específicos que tratamos.
Temos uma série de objetivos com este livro, como desmistificar um pouco sobre os palavrões, entender seu funcionamento e mostrar a você o quão fascinante é estudar cientificamente como as línguas humanas funcionam, desta vez do ponto de vista dos palavrões.
Por fim, é importante dizer que este livro é fruto de uma parceria de pesquisa entre os autores que já dura alguns anos, e que pode ser constatada ao final dos capítulos: em vários deles remetemos a artigos nossos e a artigos escritos em parceria com outros colaboradores, bem como a trabalhos de outros pesquisadores do Brasil e do exterior. O interesse nos palavrões e injúrias cresceu muito nos últimos 20 anos, não só na Linguística, mas também na Filosofia e na Psicologia, e esperamos com este livro fazer jus a essa tradição de pesquisa vibrante e fascinante e torná-la mais acessível para quem quiser saber mais sobre “palavrões” e suas várias funções.
Renato Miguel Basso é professor da Universidade Federal de São Carlos. Pesquisa a descrição de fenômenos linguísticos usando as ferramentas da semântica e pragmática formais, com ênfase em semântica do verbo e dos indexicais. Interessa-se também pela linguística histórica e epistemologia da linguística. Pela Contexto é organizador do livro Semântica, Semânticas: uma introdução e coautor dos livros O português da gente, Gramática do português culto falado no Brasil vol. III e IV, A Linguística hoje: historicidade e generalidade e Conceitos básicos de linguística: níveis de análise.
Luisandro Mendes de Souza é professor adjunto no Departamento de Letras e Linguística (DELLIN) da Universidade Federal do Paraná. Licenciado em Letras (Português/Inglês) pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória (atual campus Universidade Estadual do Paraná), é mestre e doutor pela Universidade Federal de Santa Catarina, com doutorado sanduíche na Universidade de Chicago. Suas áreas de interesse são a Semântica e a Pragmática Formal e suas interfaces. Pela Contexto é autor no livro História do português brasileiro volume VIII e do livro Para conhecer Pragmática.

