Prefácio à edição brasileira
Há livros que chegam como tendência; outros chegam como diagnóstico. O culto do bem-estar pertence a uma terceira categoria, bem mais rara: a dos livros que explicam um fenômeno cultural inteiro – com o objetivo de nos devolver um pouco de lucidez. Embora escrito a partir da experiência norte-americana, ele ecoa imediatamente no Brasil, onde o bem-estar virou um idioma nacional, uma promessa constante e, ao mesmo tempo, um terreno fértil para confusão, oportunismo e consumo impulsivo. Rina Raphael, jornalista que escreve sobre a indústria do bem-estar há anos, descreve- a por dentro e por fora, do marketing às contradições internas, das tecnologias de otimismo às narrativas de salvação individual. Sua investigação é minuciosa, bem-humorada e, sobretudo, necessária num momento em que promessas de saúde perfeita, longevidade sem esforço e equilíbrio emocional individualizados estão por toda parte.

A palavra “bem-estar” virou um rótulo tão amplo que praticamente cabe tudo ali dentro. Alimentação, exercícios, sono, gerenciamento de estresse, organização da rotina, rituais variados, suplementos, cosméticos, técnicas respiratórias, e até práticas que têm muito mais a ver com imaginação espiritual do que com qualquer manual clínico. Em sua essência, bem-estar é apenas a busca ativa para viver o melhor possível fora do consultório médico: prevenir problemas, manter o corpo e o cérebro funcionando, acalmar a mente e, de alguma forma, enfrentar os desafios do cotidiano. Mas o modo como essa busca se transformou em mercado – imenso, difuso e altamente lucrativo – é o objeto central deste livro.
O que torna este livro tão relevante não é apenas o mapeamento de um setor que movimenta trilhões de dólares no mundo. É a clareza com que Raphael expõe um paradoxo profundo: quanto mais as pessoas se sentem pressionadas, exaustas e sobrecarregadas, mais se tornam alvo ideal para soluções mágicas vendidas como atalhos para uma vida melhor. A promessa é sedutora: basta comprar o produto certo, seguir o protocolo certo, ingerir o suplemento certo, repetir o mantra certo. O mal-estar, dizem, é uma falha pessoal – jamais estrutural.
E é impressionante quão fácil é ser capturada-enganada por essa indústria – a própria Rina Raphael o foi… Por anos, foi cliente desse mercado: acumulava suplementos, produtos de CBD, gotas e óleos que prometiam melhorar sono, energia, humor, pele, produtividade. Nada parecia absurdo demais, desde que oferecesse uma solução rápida para sensações que qualquer pessoa conhece – fadiga, lentidão, baixo rendimento, insegurança. Não se trata de ingenuidade; trata-se de cansaço, vulnerabilidade e do desejo humano por alguma forma de alívio.
Mulheres, aliás, são uma presa muito mais fácil da indústria do bem-estar. Elas relatam níveis mais altos de estresse do que os homens, desempenham jornadas múltiplas, são cobradas para estar sempre dispostas, leves, equilibradas e “em forma” – e internalizam essa cobrança como parte do trabalho emocional que se espera delas. Não surpreende que o wellness tenha encontrado nelas seu público mais fiel: um público que quer, genuinamente, cuidar de si, mas que também é alvo preferencial de discursos que transformam cansaço em falha moral e autocuidado em obrigação estética e comportamental.
O livro expõe com nitidez as táticas manipuladoras do marketing do bem-estar contemporâneo. Muitas delas foram importadas de indústrias como as das dietas da moda, da produtividade e até do álcool – e se baseiam em estratégias profundamente emocionais, que sugerem que a vida plena depende de um produto, suplemento ou ritual específico. Ou que existe algo “puro”, “natural” ou “limpo” capaz de resgatar o indivíduo de um mundo apresentado como “tóxico”. Essa narrativa – emocional, nostálgica, sedutora – se infiltra em rótulos, embalagens, posts de Instagram e nos discursos de especialistas improvisados. A estética do “natural”, por exemplo, aparece tanto em cosméticos quanto na propaganda da maconha “orgânica”, vendida como alternativa mais segura do que medicamentos, mesmo quando essa equivalência não encontra sustentação científica.
O livro toca, então, em algo essencial: a confusão generalizada (às vezes cuidadosamente cultivada) sobre o que chamamos de “evidência”. E essa confusão não surge no vácuo – ela prospera justamente porque tantas pessoas, pressionadas e cansadas, buscam alívio rápido, o que as torna mais vulneráveis a promessas fáceis. É nesse ponto que a mensagem de O culto do bem-estar se encaixa de forma tão contundente: quando estamos fragilizados, a fronteira entre solução real e estratégia de venda torna-se perigosamente tênue.
Evidência, afinal, não é a experiência pessoal de alguém, nem a opinião de um influencer, nem um termo solto como “clinicamente testado” estampado na embalagem de um produto. Evidência significa estudos desenhados com rigor, protocolos de ensaio clínico randomizado, comparação entre grupos, replicação de resultados, avaliação independente. É o oposto de marketing. E, ao contrário do que muitos pensam, práticas sem evidência não são neutras. “Mal não faz” quase nunca é verdade: custam dinheiro, tempo, energia, atenção – recursos escassos para qualquer pessoa, especialmente para quem já vive no seu limite.
Para o leitor brasileiro, essa parte da conversa é inevitável, porque toca diretamente no nosso cotidiano. Basta olhar para as redes sociais: no Brasil, a velocidade com que práticas duvidosas se tornam modas legítimas é impressionante. Alguns dos maiores nomes dessa indústria – inclusive na área de saúde física e mental – operam com enorme alcance e sem qualquer comprovação real de benefício. Alguns usam pseudociência; outros nem isso. A combinação de baixa escolaridade média, desigualdade informacional, urgência por soluções e um mercado agressivo transforma o país em um ambiente onde quase tudo encontra público. O entusiasmo não vem acompanhado de cautela.

Nada disso significa rejeitar práticas que realmente fazem bem – exercício, alimentação adequada, sono, meditação, psicoterapias baseadas em evidência, quando necessário – nem desqualificar o desejo legítimo de cuidar de si. O que O culto do bem-estar mostra, com clareza, é outra coisa: o risco de transformar saúde em crença, de substituir evidência por promessas sedutoras, de operar um mercado sem proteção ao consumidor enquanto a culpa é devolvida inteiramente ao indivíduo. Raphael não ridiculariza quem busca alívio; ao contrário, reconhece a legitimidade desse impulso e argumenta que ele merece respeito na forma de informação confiável, ética e políticas públicas de verdade. Seu livro é, no fim das contas, um convite – a examinar onde depositamos nossa fé, dinheiro e energia; a distinguir cuidado de marketing; a recuperar autonomia em vez de aceitar culpa e a lembrar que bem-estar não se compra pronto, mas se constrói, com evidência e honestidade, mesmo em um mundo que insiste em vender atalhos.
Ilana Pinsky – (Psicóloga clínica, terapeuta familiar e pesquisadora. Doutorou-se pela Unifesp e foi professora associada da Universidade de Colúmbia. É autora de mais de 80 artigos publicados em revistas científicas e de vários livros. Possui uma coluna sobre saúde mental na Veja)

