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Manual de análise do discurso

A Análise do Discurso e sua relação com disciplinas concorrentes

Podemos dizer que a AD tem duas dimensões interdependentes. De um lado, trata-se de uma disciplina que se dedica a um modo de leitura de textos. Nesse sentido, ela se filia a uma linhagem de disciplinas que historicamente vem se dedicando a essa prática, como a Hermenêutica, a Filologia e a Teoria Literária. De outro, ela não se limita a essa prática. Trata-se de uma disciplina preocupada com a formulação de uma teoria geral da linguagem, uma vez que a prática de leitura que realiza pressupõe um modo de conceber o processo que tornou possíveis os textos de que se ocupa. E aí, por esse aspecto, a Análise do Discurso é também uma teoria da discursividade, o que a aproxima das disciplinas científicas voltadas para a compreensão teórica da linguagem, como a Linguística e a Semiótica.

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A Hermenêutica

No campo das disciplinas voltadas à leitura, a AD distancia-se da Hermenêutica. De origem grega (sερμηνευτική), trata-se de disciplina que tem como objetivo alcançar uma interpretação correta e objetiva de textos jurídicos, filosóficos ou religiosos, em especial dos evangelhos. Hermes, divindade grega associada à comunicação e ao entendimento humano, é considerado seu patrono. Assim, a Hermenêutica orienta-se pela busca do Sentido único e verdadeiro de um texto. Já a Análise do Discurso, ao contrário, parte da ideia de que todo texto comporta uma pluralidade de leituras possíveis e, por isso, busca explorar essa multiplicidade de sentidos.
Embora a AD pretenda, sim, efetuar uma interpretação de textos, interpretação que se pretende rigorosa e de boa qualidade, na medida em que amparada em sua materialidade e em um aparato teórico-metodológico, esta não se pretende o desvelamento de um sentido oculto do texto.

Um ponto crucial, portanto, marca o distanciamento entre as duas disciplinas: uma vez que não considera o texto como uma unidade fechada, mas sempre aberta a múltiplas interpretações, a AD está sempre atenta à possibilidade de o sentido poder ser outro, seja pelo fato de que cada leitor efetua sempre uma leitura diferente, seja por conta das condições históricas de produção da leitura, em constante transformação.

Além disso, como qualquer disciplina do campo da cientificidade, a AD deve rejeitar uma leitura normativa, se recusando a tentar responder a questões como: “Qual é a melhor maneira de se descobrir o que realmente este texto quis dizer?”, “Como atingir o real sentido de um texto?” etc. Interessa à AD o que de fato foi dito, os múltiplos sentidos liberados, o como foi dito…

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A Filologia

Já a Filologia (do grego antigo Φιλολογία, “amor à palavra, ao discurso” – não confundir com “filosofia”) é uma disciplina que estuda a língua, a literatura e a cultura de um povo em uma perspectiva histórica a partir de documentos escritos.
Por vezes, o termo pode também denominar o estudo científico da história de uma língua ou família linguística, porém esse estudo é mais apropriadamente chamado hoje de Linguística Histórica ou de “Filologia” adjetivada pelo ramo linguístico que estuda: temos a Filologia Românica, encarregada do estudo da família de línguas derivadas do latim (português, galego, catalão, espanhol, francês, italiano etc.); a Filologia Germânica, voltada para o estudo da família de línguas descendentes do germânico antigo (inglês, alemão, holandês, sueco etc.); e assim por diante.
Assim, os filólogos propriamente ditos se dedicam ao estudo material e crítico dos textos, em especial os antigos e os literários do passado. Entre os campos de estudo da Filologia estão:

  • A Ecdótica, que busca identificar e corrigir falhas em documentos escritos a fim de reconstituir um texto de modo a torná-lo ao máximo possível idêntico ao original.
  • A Crítica Textual, que examina textos antigos para compreender como foram preservados ou alterados ao longo da história.
  • A Crítica Genética, que foca no processo criativo da obra literária, analisando os caminhos percorridos pelo autor e os materiais preparatórios que levaram à versão final.
  • A Paleografia, que se dedica à leitura e interpretação de manuscritos antigos e medievais, investigando também como a escrita se formou e evoluiu ao longo do tempo.
  • E a Epigrafia, que estuda inscrições antigas feitas em suportes duráveis, com o objetivo de decifrá-las, interpretá-las e organizá-las de modo sistemático.

Em relação à Filologia, podemos dizer que não se trata para a AD de ler o texto com o pretexto de estabelecer ou compreender seu contexto cultural. Isso pressuporia uma visão do contexto de um texto como uma moldura, em uma relação de exterioridade, como se o contexto de um texto fosse em uma realidade constante, muda, indiferente e preexistente ao texto.
Veremos que, para a AD, todo texto participa da instauração de seu contexto. O contexto está inscrito no texto de modo complexo e inextricável, embora nem sempre perceptível. Além disso, embora muitos analistas estabeleçam objetivos diversos para a análise e, de algum modo, um certo finalismo tenha marcado a própria origem da disciplina, a AD deve rejeitar a ideia de pretexto, pois ela supõe uma secundarização da análise em função de fins ou objetos supostamente mais nobres.
Tudo isso sem contar a restrição injustificável a materiais escritos, já apontada pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure em seu Curso de Linguística Geral (2000). A AD se interessa por textos veiculados em qualquer que seja sua materialidade: oral, escrita, gráfica etc.

A Teoria Literária

A AD deve bastante à Teoria Literária. Trata-se de uma área de estudo voltada especificamente para o texto escrito esteticamente produzido, analisando suas características internas, suas relações com outros textos semelhantes, além do papel desempenhado pelo autor e pelas convenções de gênero.

A Teoria Literária, em íntima relação com a História da Literatura, dedica-se a investigar de que modo os textos se relacionam com correntes literárias específicas.
Como área de conhecimento, sua função consiste em formular conceitos, construir hipóteses de interpretação, propor metodologias e desenvolver instrumentos de análise que permitam examinar as obras de maneira aprofundada, levando em consideração os recursos linguísticos que empregam, a tradição literária da qual fazem parte, o gênero em que se inscrevem.

Nas últimas décadas, no Brasil, essa disciplina exerceu papel central nas práticas de leitura e interpretação em contexto escolar, assumindo quase sozinha a condução das práticas analíticas voltadas para o texto e para o discurso com as quais os usuários leigos da língua tiveram contato ao longo da infância e da adolescência.

O estudo dos textos literários historicamente legou importantes conceitos hoje apropriados pela Análise do Discurso, como gênero, intertextualidade e posicionamento.

É clara, no entanto, a diferença entre as duas disciplinas em pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar, a apreensão da AD pretende-se muito mais abrangente, podendo inclusive tomar o próprio discurso da Teoria Literária (assim como o seu objeto – os textos literários) como objetos de análise.

No entanto, e este é o segundo lugar, a abordagem discursiva, mesmo a de textos literários, não será estética. Ou seja, sem pretender substituir e sem que o aspecto estético seja negligenciado, o texto literário não será analisado pela AD com o objetivo de apreender sua literariedade, não será julgado em suas qualidades artísticas através de conceitos como “belo” ou “bom gosto”, mas como uma enunciação (como tantas outras) que funciona ligada a uma instituição discursiva específica.
Antes de prosseguir, dê uma olhadinha neste quadro:

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Leia o primeiro capítulo completo no Leia um trecho


Nelson Barros da Costa é professor titular do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Tem doutorado em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), mestrado em Educação Brasileira e graduação em Letras pela UFC. Pesquisa música brasileira e é também escritor e artista plástico. É um dos organizadores de As margens do discurso, que reúne textos de Dominique Maingueneau.

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