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Como nos tornamos brasileiros? A formação da nação no século XIX

Escrever sobre o Brasil do século XIX é um exercício repleto de desafios e encantos. A dificuldade reside na necessidade de abarcar realidades profundamente diversas ao longo de um período extenso, tarefa que exige navegar por uma bibliografia vasta, por vezes desigual, e transformá-la numa narrativa clara e envolvente. Já o fascínio vem da jornada em si: percorrer este que é, sem dúvida, o século mais decisivo de nossa formação. É nos Oitocentos que testemunhamos a transição de uma América portuguesa, parte integrante de um Império ultramarino assentado sobre o trabalho escravizado, para um país independente, consolidado, republicano e, finalmente, liberto da escravidão.

A trajetória entre esses dois momentos, no entanto, esteve longe de ser tranquila. Se, por um lado, a América portuguesa conseguiu evitar a fragmentação política que se verificou nas antigas colônias espanholas (à custa de forte repressão, diga-se), por outro, manteve durante quase todo o século a escravidão, sendo a última nação das Américas a extingui-la. Além disso, a República, que se estabeleceu apenas no final do século através de um golpe militar, não representou a democratização da estrutura política.

Como nos tornamos brasileiros? A formação da nação no século XIX

Esse rápido panorama nos mostra a existência do que podemos chamar de hegemonia conservadora na construção e condução do país, mas não nos revela toda a história. Vista a partir de baixo, a realidade se apresenta muito mais complexa, com a presença de uma gama variada de grupos sociais que também moldaram o país que então se construía e cujas interações envolveram tanto conflitos quanto negociações.

Nesse livro, nosso objetivo foi apresentar essa imensa complexidade para os nossos leitores. Por ele desfilam nobres, ricos comerciantes, banqueiros e grandes fazendeiros, mas também escravos, libertos e a população livre e pobre, imensa maioria frequentemente esquecida por nossa historiografia.

Para dar conta desse desafio, estruturei o livro em capítulos que abrangem a rica diversidade regional brasileira, evitando qualquer reducionismo que buscasse limitar a história econômica e social do Brasil à dos seus principais setores econômicos.

O primeiro capítulo foi dedicado à chegada da Família Real, fato que inaugura as profundas transformações que ocorrerão no Brasil. É um capítulo voltado, ao mesmo tempo, às mudanças econômicas e institucionais que englobam toda a América portuguesa (e que levarão à Independência), mas também aos impactos ocorridos no Rio de Janeiro, cidade que será sucessivamente a corte dos Impérios português e brasileiro.

O capítulo seguinte analisa a sociedade cafeeira. Aqui, minha preocupação foi demonstrar que o café não foi apenas mais um cultivo numa tradição agroexportadora que vinha do período colonial, mas, pelo contrário, que sua expansão gerou alterações profundas nas regiões onde se instalou. Mais ainda, apresentei a sociedade constituída a partir de sua difusão, tanto no seu extrato superior (barões e comerciantes) quanto naqueles que produziam de fato a riqueza: os escravos africanos, trazidos em escala inédita para o Brasil.

No terceiro capítulo, voltei-me à produção de alimentos, cujo dinamismo foi fundamental para sustentar o crescimento acelerado da população brasileira ao longo do século. Embora já contemplada por uma produção historiográfica significativa, esse é um tema ainda pouco conhecido pelo leitor comum, e que, por isso, busquei apresentar.

O percurso seguiu então para o Nordeste. Ali, a permanência da atividade açucareira, somada a uma produção agrária bastante variada, resultou em uma evolução completamente diversa da sudestina não apenas em termos econômicos, mas também sociais, refletindo-se até na experiência da escravidão. Fica evidente, assim, a complexidade do país que nascia, impossível de ser entendido por uma só lente.

Dali, partimos para o Sul, uma região cuja identidade foi forjada na fronteira e na pecuária, mas também pelos seus laços com o Sudeste. A fronteira, aqui, foi vista em sua dupla face: um limite internacional palco de constantes disputas e, principalmente, um espaço vivo de ocupação. Um lugar onde a sociedade se constrói por meio da chegada ininterrupta de novos habitantes e da apropriação da natureza e das populações preexistentes.

Essa mesma concepção de fronteira foi fundamental na compreensão da Amazônia e do Centro-Oeste, cuja ocupação ganhou não só contornos inéditos no século XIX como uma escala muito distinta da que existia até então. Aí, a ecologia ganha um papel fundamental para explicar as formas de ocupação dos espaços e as atividades econômicas desenvolvidas.

Na conclusão, busquei ressaltar as contradições de um país que, na virada para o século XX, combinava significativas transformações econômicas com a manutenção de traços arcaicos que, em grande parte, remetiam ainda ao período colonial. A intenção final é instigar no leitor a pergunta: que país queremos?

Quem se aventurar a ler o livro pode ter uma certeza: ele foi escrito com uma enorme paixão. Paixão pelo país, paixão pelo povo brasileiro, e paixão pela história, ciência dos homens que tanto tem a nos questionar. Uma ótima leitura a todos!


Antonio Carlos Jucá  é professor titular do Instituto de História da ufrj e pesquisador do CNPq. Ao longo de sua carreira, dedicou-se ao estudo do Brasil nos períodos colonial e imperial, com ênfase nos aspectos socioeconômicos. Atualmente estuda a história da desigualdade social nas diversas regiões brasileiras.   

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