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Como fazer nossas resoluções de Ano Novo funcionarem

Desejos vagos têm eficácia próxima de zero e resoluções são abandonadas; ser humano não opera bem com abstrações genéricas para orientar comportamentos

O fim do ano costuma acionar um impulso quase irresistível de traçar resoluções para os meses seguintes. Mesmo quando o cansaço é grande e o mundo não ajuda, insistimos em desejar mudanças positivas para nós e para os outros. Talvez porque desistir de desejar seja um passo perigoso. Como diz a antropóloga Jane Goodall no documentário Famous Last Words (Últimas Palavras), da Netflix: “Não perca a esperança. Quando a esperança se perde, vem a apatia — e, com ela, a inação”.

A psicologia chama de fresh-start effect (efeito do recomeço) o fenômeno de usar marcos simbólicos — como o Ano Novo, o Rosh Ashaná, aniversários ou até segundas-feiras — para iniciar mudanças. É nesse espírito que pulamos ondas, oferecemos flores a Iemanjá, concentramos pensamentos e projetamos abrir novos caminhos e implementar novas conquistas.

Como fazer nossas resoluções de Ano Novo funcionarem

Paz, equilíbrio, ter mais tempo e menos ansiedade, ser menos consumista, alimentar-se melhor, entrar em forma, criar uma família, mudar de emprego, encontrar finalmente um amor que valha a pena, ter mais coragem, viver num mundo mais sensato.

Para isso, fazemos um pequeno pacto pessoal: colocamos o pensamento crítico em modo econômico por alguns dias e aceitamos apostar numa dose moderada de esperança. Em alguns países, como a Suécia, um arranjo desses quase não acontece — apenas cerca de 18% da população costuma assumir intenções de Ano Novo.

Ainda assim, isso não significa que desejar coisas boas seja um erro psicológico. Acreditar que a mudança é possível aumenta as chances de que algo, de fato, mude. Além disso, as resoluções de Ano Novo oferecem um cenário privilegiado para observar como as pessoas iniciam, sustentam ou abandonam mudanças ao longo do tempo.

O que se verifica, de forma bastante consistente, é que desejos vagos têm eficácia próxima de zero. Uma parcela significativa das resoluções feitas com esse perfil é abandonada ainda no primeiro mês. Não por falta de boa intenção, mas porque o ser humano não opera bem com abstrações genéricas quando precisa orientar comportamentos. “Quero ser mais saudável”, “quero ser mais paciente”, “quero ter mais paz” não são objetivos: são estados finais idealizados, sem instruções mínimas para a ação.

E desejar, por mais intensamente que se deseje, não é um mecanismo capaz de transformar valores nobres em condutas concretas. A terapia cognitivo-comportamental sempre tratou a mudança como algo observável, mensurável e ajustável. A ideia central é reduzir a distância entre intenção e ação. Objetivos funcionam melhor quando são específicos, delimitados no tempo e vinculados a comportamentos claros.

Quando a meta é vaga, não sabemos quando ela começou, quando terminou e, sobretudo, não sabemos se fomos avançando. Sem feedback, não há aprendizado. Sem aprendizado, não há mudança sustentada.

Tomemos o exemplo clássico de “ler mais livros” — meta que deveria estar na lista de todos nós. Do ponto de vista psicológico, ele orienta pouco. Ler quanto? O quê? Quando? Em que circunstâncias? Com qual prioridade em relação a outras atividades? Um objetivo mais eficaz não é necessariamente mais ambicioso, mas mais concreto: ler dez livros no ano, começando por um romance específico já disponível em casa, vinte minutos antes de dormir, quatro vezes por semana.

Meu amigo Daniel, por exemplo, já escolheu e adquiriu os quinze primeiros livros que pretende ler — vários deles estão na mesa de cabeceira. Isso não garante que a leitura vá acontecer — a vida segue caótica —, mas aumenta consideravelmente a possibilidade de que o comportamento se sustente. E, se não ocorrer, permite entender por que e ajustar o plano. O problema deixa de ser “falta de força de vontade” e passa a ser algo mais manejável: um horário mal escolhido, um livro pouco envolvente ou uma meta incompatível com a rotina real.

A lógica é a mesma para objetivos mais abstratos. “Quero ter mais paz” é uma formulação bonita, mas pouco clara. Paz não é um comportamento; é um excelente efeito colateral. A pergunta relevante não é “como me sentir mais em paz”, mas “o que, concretamente, estou disposto a fazer diferente”. Dormir em horários mais regulares? Reduzir o consumo de notícias negativas? Estabelecer limites mais claros no trabalho? Diminuir compromissos assumidos por culpa? Cada uma dessas escolhas envolve custos e benefícios — e as pessoas mudam mais quando encaram esses custos de frente, em vez de fingir que mudança é apenas ganho.

Outro ponto frequentemente ignorado nos rituais de Ano Novo é a ilusão de controle total. Muitos objetivos fracassam porque incluem variáveis que não dependem de quem os formula. “Quero que o mundo fique menos violento”, “quero que minha família seja mais unida”, “quero que meu chefe mude”.

A frustração não vem do desejo em si, mas da falsa premissa de que desejar algo equivale a poder concretizá-lo. Uma abordagem mais modesta — e justamente por isso mais eficaz — desloca a pergunta do “o que eu quero que aconteça” para “o que está sob meu controle direto”. Não é paz no mundo, mas talvez uma ação concreta: apoiar uma organização específica, reduzir a agressividade nas próprias interações ou simplesmente parar de compartilhar conteúdos que amplificam ódio.

Há também um equívoco persistente sobre motivação: a ideia de que ela precisa surgir pronta para então permitir a ação. Na prática, raramente funcionamos assim. A motivação é instável e se constrói aos poucos. Agir um tanto pode aumentar a disposição para continuar; grandes arroubos feitos cedo demais, costumam produzir o efeito oposto.

Quando os objetivos são enormes, muito abstratos ou carregados de autojulgamento, a tarefa rapidamente se torna avassaladora. O corpo e a mente respondem com procrastinação ou desistência e com aquela sensação incômoda de não saber nem por onde começar. Não é falta de caráter ou capacidade; é falta de ajuste.

Quem está há anos sem fazer atividade física não precisa, como primeiro passo, treinar para um Ironman. O que parece inspiração, frequentemente funciona como sabotagem. Mudanças mais duráveis começam quando o tamanho do passo combina com o momento e o alcance da pessoa. Pequenas ações produzem algo essencial: a experiência concreta de conseguir. Esse progresso visível alimenta a motivação, que por sua vez facilita novos avanços. Comportamento e motivação passam a se reforçar mutuamente.

Por fim, há um elemento pouco romântico, mas decisivo: planejar os tropeços. Muitas metas são formuladas como se passássemos o ano inteiro em nossa melhor versão — descansada, organizada, emocionalmente regulada. A vida real não funciona assim.

Um bom objetivo já inclui um plano mínimo, para quando as coisas saírem do eixo. Se eu não conseguir ir à academia cinco vezes por semana, o que faço? Se eu perder duas semanas de leitura, como eu retomo do ponto possível? Se surgir mais uma briga familiar, que outras estratégias posso tentar?

A diferença entre persistência e desistência costuma estar na existência prévia de um plano B. Talvez a melhor pergunta para começar o ano não seja “o que eu desejo”, mas “o que estou disposto a fazer, de forma realista, mesmo quando não estiver inspirado”. Essa pergunta não rende votos emocionantes nem promessas grandiosas. Mas tem uma vantagem considerável: funciona.

Fonte: Veja


Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora ligada à Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto) e foi consultora da OMS e professora da Unifesp e da Universidade Colúmbia (EUA)

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