“O cérebro é o principal órgão sexual.”
Trata-se de uma afirmação bem conhecida. Mas o que ela, de fato, significa? Sabemos que o cérebro desempenha papel central em nosso sistema nervoso e que orquestra boa parte de nossos mecanismos fisiológicos. Mas será que o comportamento sexual pode ser estudado como qualquer outro? Será que tentar compreender seu funcionamento não tiraria um pouco da magia do amor? O que as pesquisas científicas – confiáveis e verificadas – já conseguiram levantar a respeito desse assunto? Seria possível aos cientistas deixarem de lado seus vieses culturais e linguísticos para tratar noções tão subjetivas como os sentimentos e os desejos? Como, dessa forma, apreender os contornos dessa estrutura da intimidade? E como aplicar os resultados obtidos à vida cotidiana? E que transformações tais pesquisas podem trazer para nossas sociedades?
Com frequência, ao final de uma palestra ou de uma aula, alguém me pergunta: “qual é o melhor livro sobre sexualidade?”; e eu sempre respondo que não tenho tempo nem espaço suficiente na minha biblioteca para ler todos os livros sobre o assunto. Mas concluo minha resposta com a seguinte brincadeira: “Há três livros fundamentais para compreender a sexualidade: a Bíblia, o Código Penal e as obras de Darwin!”. O considerável contraste entre essas obras dá o que pensar, mas me parece bastante indicativo do tamanho do desafio para quem deseja compreender o funcionamento da sexualidade humana – seus dilemas, suas regras, suas possibilidades e suas proibições.
A Sociologia, a Antropologia ou a História oferecem pistas fundamentais de como a cultura se entranha em nossos comportamentos, modela nossos costumes, elabora nosso referencial – decorre daí a importância de conhecer os livros considerados sagrados e suas doutrinas. Atualmente, no Ocidente, é sobretudo a lei que define os limites das nossas sexualidades – representada, na França, pelo Código Penal e pelo Código Civil. Desnecessário dizer que tal quadro sofreu várias mudanças, para dizer o mínimo, ao longo da nossa história. Desde o século XIX, a ciência contemporânea também passou a ter considerável influência em nossas leis, seja em sua redação ou em eventuais modificações. Podemos utilizar como exemplo, o caso da homossexualidade: em dezembro de 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais, algo que levou, nas décadas seguintes, a mudanças legislativas em todo o Ocidente, incluindo a descriminalização da homossexualidade na França, no ano de 1982 (sim, após quase 10 anos), com a abolição do parágrafo 3 do artigo 331 do Código Penal – lei que elevava a idade de consentimento para relações entre pessoas do mesmo sexo a 21 anos (trata-se de legislação herdada do regime de Vichy*). A ciência pode, portanto, impulsionar avanços sociais. Ainda assim, é preciso compreendê-la corretamente e não atribuir-lhe o que projetamos.
A Sexologia, enquanto área científica e acadêmica, tem mais de um século de existência. Nasceu na Alemanha no final do século XIX, com os médicos Richard von Krafft-Ebing e Magnus Hirschfeld, que abriram caminho para a psicanálise e a abordagem psiquiátrica e clínica das disfunções sexuais, que ainda era designados como “desvios”. O fundador da psicanálise, Sigmund Freud, em conjunto com seus discípulos, se apropriaram igualmente do tema para construir outras teorizações e ferramentas mais ou menos adaptadas à sociedade da sua época. As grandes guerras que devastaram a Europa e o mundo – tanto demográfica quanto psicologicamente – também impactaram os modos e modificaram as necessidades, representações e inclinações de nossas sociedades. As mulheres passaram a ter direito ao voto, tecnologias tiveram acelerado desenvolvimento, tanto formas urbanísticas quanto modelos familiares evoluíram e a Medicina moderna reduziu a taxa de mortalidade materna (que estava entre 3% e 7% no final do século XIX1). A Segunda Guerra Mundial colocou os Estados Unidos como a nova potência econômica do Ocidente, centralizando até os dias de hoje pesquisas e cientistas. Tal guinada possibilitou o surgimento de uma nova Sexologia, mais moderna e mais técnica – representada pela escala de Kinsey, que revolucionou para sempre as concepções sobre a orientação sexual, além dos estudos de Masters e Johnson, que implementaram um retorno à fisiologia no estudo da sexualidade (voltaremos adiante a esse tópico). Regressar ao corpo era necessário, após mais de meio século de domínio da psicanálise nesse campo.
E, sobretudo, a segunda metade do século XX assistiu a uma revolução cuja importância seguimos subestimando: a contracepção. O domínio da nossa procriação representou uma enorme transformação, oferecendo a escolha de ter ou não filhos: quantos, quando e com quem. Também permitiu separar o ato sexual da procriação, criando um novo espaço de liberdade, impensável para casais e indivíduos que se deparavam com questões ancestrais concernentes às definições de amor, desejo, prazer. Agora estamos, paradoxalmente, paralisados diante de tantas escolhas, sem referências históricas e culturais para discernir corretamente nossas necessidades, limites ou desejos. Com os aplicativos de encontros e o tsunami de sites para adultos, que fornecem uma ilusão representada pelas possibilidades de escolha infinitas, nos sentimos ainda mais desorientados ao usufruir dessa liberdade.
Ao mesmo tempo, a segunda metade do século XX testemunhou o surgimento de um novo campo disciplinar: as ciências cognitivas, conjunção de vários domínios diferentes relacionados ao estudo dos comportamentos humanos e animais. Do nível neurológico ao linguístico, tal acontecimento científico, que recebeu impulso considerável de expressivos avanços tecnológicos – como o emprego da ressonância magnética para obtenção de imagens –, revolucionou nossa compreensão dos mecanismos implícitos à expressão dos nossos pensamentos e comportamentos.

Atualmente, os campos de ação das Neurociências são bastante amplos e conferências mundiais em torno de tal tema reúnem, todos os anos, dezenas de milhares de cientistas de todo o mundo. Os resultados das pesquisas realizadas pelas ciências cognitivas, por sua vez, seguem a mesma linha filosófica das clássicas perguntas sobre a relação entre corpo e mente. Pois essa antiga oposição – que remonta a vários milênios no passado e é agora um pilar das culturas e civilizações humanas – ainda hoje encontra profunda repercussão tanto na sociedade quanto na vida íntima de cada um. Escolhemos nossos parceiros tendo tal dicotomia em mente. Por isso, surgem questionamentos: será esta, ele ou ela, a pessoa certa? Estou fazendo a escolha certa? Será apenas paixão? Ou ainda, retomando questões trazidas por pacientes em consultas: será que essa paixão que sinto por meu amante valeria o término definitivo da família que já constituí? Devo me casar com fulano ou fulana só porque parece que seria excelente pai/mãe de meus futuros filhos? Assim, seguimos fazendo e desfazendo nossas famílias, educando nossos filhos com essas mesmas representações, submetendo-os ao risco de reproduzir esse mesmo ciclo.
Pela primeira vez na história humana, a pesada responsabilidade por todas essas escolhas passou a ser do indivíduo, não das famílias que arranjavam casamentos, tampouco das guerras ou doenças que separavam cônjuges. Da mesma forma, prolongados períodos de paz e a revolução das descobertas de Pasteur fizeram a expectativa de vida triplicar. Fazer votos para uma união até que a morte separe passou a ter um significado bem diferente hoje, se comparado ao que tinha há um século.
Assim, pela primeira vez, uma área científica está abrindo um caminho promissor para aliviar o desconforto dessas questões metafísicas: as Neurociências. E, mais especificamente, as Neurociências Afetivas.
Se nos restringirmos a uma lógica biológica e darwinista, o ser vivo obedece a duas regras: sobreviver e se reproduzir, o que implica que o “jogo do amor” não é tão trivial e não pode ser confinado ao campo da poesia. Somos programados para transmitir nossos genes da melhor maneira possível, de forma a garantir a sobrevivência de toda a espécie. Contudo, o fato é que as Neurociências se voltaram para esse tema crucial tardiamente. Somente no início do século XXI surgiram tentativas, por parte dos cientistas, de reunir conhecimentos dispersos para realizar as primeiras investigações nessa área. Entre 1980 e 2000, foram registradas no Pubmed2 apenas 111 publicações científicas que mencionavam o termo “love”; já no período a partir do ano 2000 até o momento, são mais de 900.
Mas será que tais pesquisas cumprem o que prometem? Encontramos nas imagens produzidas por ressonâncias magnéticas respostas para nossas questões ancestrais? Ou ainda é cedo demais para isso?
Esse é o objetivo deste livro. Bem, um dos objetivos – já que, para fornecer a resposta correta diante da questão da definição do amor, apenas as Neurociências não são suficientes. A Sexologia foi construída tendo por base a Bíblia, bem como as leis e a obra de Darwin. Dessa forma, viajaremos ao longo das páginas seguintes através daquilo que a ciência conseguiu oferecer como resposta. Ao traçar um caminho, tendo como ponto de partida a delimitação de contingências biológicas, podemos apresentar respostas já alcançadas ou que estão sendo pesquisadas. O que é o sexo? Por que existem dois sexos? E, ampliando tal aspecto, o que é o gênero e por que tal noção tornou-se fundamental na Sexologia? Como acontece a interligação entre sexo e gênero? Trata-se de um dos debates menos frutíferos e mais agressivamente polêmicos da atualidade, principalmente pelo fato de que as bases biológicas não foram claramente estabelecidas ou adequadamente esclarecidas.

Além disso, se a sociedade ainda sofre com dificuldades de se libertar das imposições e representações dos séculos anteriores, as ciências, igualmente, não estão isentas dessas limitações linguísticas, teóricas e morais. O mito platônico da alma gêmea é bastante perceptível em nossas mentes, remetendo-nos a um passado remoto de concepções animistas, relacionadas ao amor puro e ideal. Em uma continuidade epistemológica, as respostas fornecidas tanto pelas Neurociências quanto pela Psicologia contemporânea acabam igualmente atravessadas pelas questões relacionadas às paixões e aos sentimentos.
Numerosas descobertas, contudo, nos levam a atalhos e caminhos indiretos, tão insuspeitos quanto inesperados na compreensão de nossos comportamentos amorosos. Da Etologia à Embriologia, passando pelas Neurociências da dependência química, através de vieses cognitivos ou, mesmo, de mecanismos psicológicos concernentes ao apego, este último meio século permitiu o estabelecimento das bases para uma Sexologia bem mais científica e biológica.
Aurore Malet-Karas é psicóloga e sexóloga, com doutorado em Neurociências Cognitivas, tendo realizado pesquisas sobre os mecanismos da memória e das emoções (especialmente as sexuais). Faz palestras para esclarecer questões contemporâneas da sexualidade a partir da perspectiva da Neurociência, da Psicologia e das Ciências Sociais.

