O Brasil e os países da América hispânica apresentam contrastes e conexões marcantes. Enquanto as regiões onde se impôs a língua portuguesa mantiveram se unidas, as de língua castelhana se fragmentaram em várias repúblicas. Nas cidades hispano-americanas mais antigas, o planejamento urbano segue um formato simétrico, com ruas retas, ao passo que, em muitas cidades coloniais brasileiras, predominam ruas sinuosas. A primeira universidade na América espanhola foi fundada em 1538, em Santo Domingo, atual República Dominicana, enquanto o Brasil só estabeleceu universidades no início do século XX. Apesar dessas diferenças, ambas as regiões enfrentam desafios semelhantes, como pobreza, concentração de renda, racismo estrutural e corrupção política, além da persistente influência da religiosidade católica e dos aspectos culturais ibéricos, mesclados com elementos indígenas e africanos. Compreender a trajetória colonial dos países latino-americanos vizinhos permite refletir sobre o que os aproxima ou os diferencia do Brasil.
Embora seja evidente que o Brasil faz parte da América Latina, este livro não aborda a América portuguesa. A expressão América Latina surgiu no século XIX, associada à construção de uma identidade regional específica. No meio acadêmico brasileiro, os países hispano-americanos são estudados em disciplinas separadas da História do Brasil. Este livro, fruto de uma longa experiência no ensino superior, opta por refletir esse recorte. Oferece uma visão abrangente da América hispânica, ao entrelaçar questões da vida cotidiana, como identidade, religião e gênero, com análises mais amplas das estruturas políticas e econômicas coloniais. Coloca em primeiro plano as experiências de indígenas, africanos e afrodescendentes, mulheres e outras pessoas comuns, sem sacrificar um tratamento cuidadoso das instituições e da economia.

Ao me referir à relação entre a Espanha e seus domínios americanos, utilizo consistentemente o termo “império”. Isso é central para a interpretação que ofereço nas páginas a seguir. No início da Época Moderna, um império era concebido como uma monarquia que incorporava diferentes reinos, os quais dispunham de instituições de autogoverno e partilhavam um sentimento de pertencimento a um todo mais amplo. Foi somente em fins do século XVIII que se popularizou, em espanhol, o termo “colônia”, refletindo uma visão mais vertical em que os territórios ultramarinos deviam ser subordinados politicamente à Coroa e dependentes dela economicamente.
O modo como a emergência desse império foi experimentada pelas pessoas que viviam nos territórios americanos e, adicionalmente, como vivenciaram a passagem de um modelo a outro constitui o problema central deste livro. Procuro mostrar como, por meio de ações em ambos os lados do Atlântico, paulatinamente emergiu uma identidade imperial que, a partir de reformas administrativas realizadas no século XVIII, passaria a ser desmantelada de forma unilateral desde Madri. Este livro, no entanto, apenas reúne elementos para entender como se construiu este descompasso entre a autoimagem dos que moravam na América e a forma como eram vistos desde a Europa. Essas tensões eclodiriam nos processos de independência dos países latino-americanos, mas a compreensão de tudo o que ocorreu antes, com destaque para as relações entre indígenas, africanos e europeus, moradores da América hispânica, é fundamental e, portanto, o objetivo desta obra.
Sua organização em cinco capítulos e um epílogo é, ao mesmo tempo, cronológica e temática. Inicia por uma análise dos primeiros contatos entre indígenas, ibéricos e africanos e dos processos de conquista. O capitulo “A montagem de um império” examina as estruturas administrativas e econômicas do império, enquanto o capítulo “Religiosidades coloniais” aborda o sincretismo cultural e religioso. O capítulo “Família e identidades” trata das interações entre indígenas, europeus e africanos, da mestiçagem e das hierarquias sociais. O capítulo “Reforma e rebelião” debate a transição para uma sociedade colonial no século XVIII, impulsionada pelas reformas bourbônicas e pelas tensões políticas decorrentes. No epílogo, é abordada a crise da Monarquia hispânica e os fatores que pavimentariam o caminho para a emancipação política nas Américas.
Antes de começar, algumas definições relevantes. Muito já se escreveu sobre a origem e os problemas do termo “índio”, fruto da crença errônea de Cristóvão Colombo de haver chegado à Índia oriental. Neste livro, preferi usar o termo “indígena”, que permite abarcar tanto os descendentes dos povos originários que se mantinham independentes quanto os que eram categorizados como “índios” pela administração espanhola e obrigados ao pagamento de tributo à Coroa. As identidades dessas populações autóctones flutuavam entre a autoidentificação com seus grupos étnicos (por exemplo, os guaranis) e a percepção de uma categorização mais genérica como “índios”.
Outro termo-chave é criollo, que se refere aos descendentes de espanhóis nascidos em solo americano. Trata-se de um termo consagrado na literatura e aportuguesá-lo causaria confusão. Por todo o período aqui estudado, os criollos se viam e eram vistos como distintos dos “peninsulares”, os espanhóis nascidos na Espanha.
Para as populações de origem africana, evito o termo “escravo”, que essencializa uma situação contingente, e utilizo escravizado, que enfatiza tratar-se de uma condição imposta. Evito, também, o termo “negro”, por ser pejorativo no período estudado, utilizado como sinônimo de escravizado, e em seu lugar uso “afrodescendente” ou “pessoa de origem africana”.

Finalmente, a intensa mestiçagem na América hispânica levou à emergência de diferentes categorias de mestiços, comumente chamados de castas na documentação colonial. Essas definições também são problematizadas no decorrer do texto.
Compreender a América Latina colonial é essencial para decifrar as complexidades do presente. Ao revisitar a história da América hispânica, esta obra desconstrói mitos consolidados e destaca as múltiplas interações entre povos indígenas, africanos e europeus, revelando um passado marcado por resistências, transformações e adaptações mútuas. Este livro é um convite para revisitar esse período, refletir sobre suas marcas e entender como ele continua a influenciar quem somos hoje.

