Por Viviane Gouvêa
Transferência da capital brasileira para o interior do país, em 1960, provocou euforia pela construção da moderna Brasília, mas deixou a antiga capital fluminense tensa com o futuro.
De acordo com o Boletim Estatístico de Pessoal, divulgado pelo antigo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão em 2015, 102,6 mil servidores federais estão lotados no Rio de Janeiro, contra 70,3 mil pessoas em Brasília, a Capital Federal. Esse número pode ser explicado em função do elevado número de instituições federais nas áreas de saúde e educação (Ministério da Educação: 35,7 mil servidores, isto é, 34,8% do total; Ministério da Saúde, 33,8 mil servidores) que jamais foram transferidas para Brasília por atenderem a população local, refletindo ainda assim o passado da capital fluminense como capital do nosso país por cerca de 200 anos, atravessando os períodos colonial, imperial e republicano.
Esse longo período encerrou-se em abril de 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília, construída no Planalto Central seguindo uma ideia antiga e a determinação da Constituição de 1946, cujo artigo 4 das Disposições Transitórias determinava que “A Capital da União será transferida para o planalto central do país”, e que “Efetuada a transferência, o atual Distrito Federal passará a constituir o Estado da Guanabara.”

Uma nova capital para o Brasil já vinha sendo pensada, sugerida desde o século anterior, quando a nossa primeira Constituição republicana (1891), seguindo ideais ainda mais antigos de José Bonifácio no pós-Independência, estabelecia em seu artigo 3 que uma nova capital deveria ser construída no estado de Goiás, em uma área de 14 mil km², explorada em 1893 pela chamada Missão Cruls, com o propósito de conhecer melhor a região da futura capital federal.
A mudança, contudo, só se concretizaria quase 70 anos depois.
No Planalto Central do Brasil, a nova capital, a cidade-monumento – Brasília
Mesmo antes da nossa segunda Constituição republicana (1946), o governo federal havia manifestado interesse concreto na construção de uma nova capital, expresso, por exemplo, na criação da Fundação Brasil Central, organizadora da missão Xingu-Roncador na década de 1940, ainda durante o governo de Getúlio Vargas. Mas apenas a chegada de Juscelino Kubitschek à presidência, em 1956, tornou o artigo 4 das disposições transitórias da Constituição de 1946 em realidade.
Em setembro de 1956, o presidente Kubitschek assinou a lei 2874, que “dispõe sobre a mudança da Capital Federal e dá outras providências.” Na mesma época, um passo decisivo para a construção da nova capital foi dado: a criação da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil, a notória (infame?) NOVACAP, responsável por todo o processo de construção de Brasília e da transferência do governo para a nova cidade. Posteriormente acusada de violência contra os trabalhadores envolvidos na construção e desvios de verba, a NOVACAP acabou sob escrutínio e investigação na década seguinte.
Em seguida, um concurso nacional recebeu inscrições para o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital, organizado pela Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Nova Capital Federal. O concurso visava escolher um projeto urbanístico, já que o arquiteto Oscar Niemeyer não aceitara o convite de JK, optando por realizar os projetos dos edifícios do plano piloto. Abertas as inscrições em setembro de 1956, resultou na escolha de Lúcio Costa já em 1957, após uma polêmica e conturbada disputa entre 62 projetos de engenheiros, arquitetos e engenheiros, dos quais 27 foram validados.
Milhares de trabalhadores vieram de várias regiões do Brasil para erguer Brasília, em tempo relativamente exíguo, considerando-se as dimensões do projeto. A maioria permaneceu na nova cidade, formando bairros populares em seu entorno a partir de assentamentos organizados pela NOVACAP para abrigar os trabalhadores e suas famílias, ensejando também o surgimento precoce e desenvolvimento exacerbado das chamadas “cidades-satélite”, território à parte das quadras ocupadas pela elite política do Brasil.
Embora as controvérsias em relação à construção de Brasília não se resumam à atuação da NOVACAP – o endividamento extremo que trouxe ao país e, principalmente, acusações de corrupção e desvio de verba constituíam as acusações principais ao projeto, vocalizadas em especial por uma das maiores lideranças oposicionistas de JK, o udenista Carlos Lacerda – o fato é que o sonho desenvolvimentista acabou conquistando os brasileiros de tal forma que se tornou quase impermeável a qualquer crítica. Apesar da incredulidade de alguns, em especial dos funcionários do próprio governo federal – muitos dos quais se recusavam a sair do Rio de Janeiro para morar no que chamavam de fim de mundo – o novo centro do poder se ergueu em 4 anos e a capital migrou da costa para o interior.
A antiga capital, uma nova cidade-estado – a metrópole no litoral
Capital do Brasil antes mesmo do Brasil ser um país, o Rio de Janeiro teve que enfrentar uma crise de identidade com a iminente mudança do centro político e administrativo para Brasília. Embora há décadas discutida e estabelecida em duas constituições diferentes, a mudança de capital era encarada com ceticismo pelos cariocas, mas a determinação de JK e as obras que avançavam em passo rápido forçaram a população a encarar seu novo status: o de um estado-cidade, uma unidade da federação constituída por apenas um município – o antigo Distrito Federal, Rio de Janeiro.
Em outubro de 1957, o Congresso Nacional aprovou a Lei 3273, que marcava para 21 de abril de 1960 a transferência da capital. Segundo a Constituição, a antiga capital deveria se transformar no estado da Guanabara. Mas, para além da alteração formal, a população se perguntava o que seria da cidade, por tanto tempo centro político do Brasil. O debate chegou à academia, aos jornais, ao rádio e à TV, às artes. Jornais e revistas como O Correio da Manhã, Tribuna da Imprensa, Última Hora, O Cruzeiro emprestavam suas páginas para o debate aberto: cartas, artigos de jornalistas e acadêmicos, editoriais se perguntavam qual seria o novo papel da antiga capital. A discussão também colocava se a transformação em um novo estado de fato se mostrava a melhor escolha, diante de opções como tornar-se território federal, cidade livre, integrar-se ao estado do Rio de Janeiro.
O debate acirrou-se em especial no meio político, já que a saída do centro do poder federal abria um novo espaço político, segundo a historiadora Marly Mota, “em virtude da acentuada politização decorrente da sua condição de ‘caixa de ressonância’ das questões nacionais, com uma população alfabetizada, concentrada no meio urbano, e representando um dos mais expressivos contingentes eleitorais do país”.
A Emenda Constitucional 2, de 1956, permitia a escolha do prefeito por voto direto já em 1960, o que até então não era permitido ao carioca. O golpe de 1964 e a ditadura militar que deitou por terra as aspirações a uma “cidade-estado” autônoma, e os anos seguintes trouxeram um paulatino esvaziamento em função da transferência de empresas ligadas ao setor público para a nova capital. Em 1974, o estado da Guanabara se fundiu com o do Rio de Janeiro, e a antiga Capital Federal se tornou a capital fluminense.
A mudança forçada deixou muitos funcionários da administração pública federal descontentes. Músicas como “Não vou para Brasília”, de Billy Branco, e “Nova capital” (Aldacir Louro, Sebastião Mota e Edgard Cavalcanti), interpretada por Linda Batista, e a homônima canção de Juca Chaves aludiam à decepção e recusa em abandonar a Cidade Maravilhosa. Outras músicas exaltavam o progresso e a esperança representados por Brasília, mesmo por vezes expressando um certo saudosismo: “Vou pra Goiás”, cantada por Nelson Gonçalves; “Avante Brasília”, de José Saudo e J. Fernandes, gravada pelo trio Luizinho, Limeira e Zezinha; e o samba-exaltação “Brasília, capital da esperança”, de Cid Magalhães e Ivo Santos, na voz de Jorge Goulart, são alguns exemplos.
De todo modo, a cidade vista como rebelde por muitos políticos nas primeiras décadas da República perdeu a centralidade política e a função de Capital Federal em 1960. Enfrentou o esvaziamento econômico e teve que se reinventar a partir das suas peculiaridades, sua originalidade, seu poder de atração cultural.
Do litoral aberto ao sertão – da desordem ao planejamento
Por que a insistência em transferir a capital nacional para o interior, e mais: para o sertão?
Em tempos imperiais, quando já se pensava nessa mudança, havia uma percepção de vulnerabilidade das cidades à beira-mar, expostas a ataques de navios estrangeiros e piratas. Já no início da República, o ideal positivista de ordem e progresso se fazia sentir nas propostas de transferência da capital para uma cidade nova, moderna, à altura do novo século e – embora não fosse dito com todas as letras – exclusivista, distante dos tradicionais centros urbanos concentrados no litoral. O então Distrito Federal – Rio de Janeiro – cidade com fortes traços coloniais e imperiais, era tida como caótica e insalubre, habitada por uma população rebelde. Apontava-se também a necessidade de deixarmos de ser uma “nação de caranguejos”, agarrada ao litoral, para passar a ocupar efetivamente o interior do país.
Transferir a capital política do país para o interior tornou-se peça-chave para a consolidação da integração nacional, ao mesmo tempo em que potencialmente operava uma descentralização de poder, economicamente concentrado na região sudeste. Mais ainda, a interiorização da capital mostrava-se imprescindível para a consolidação da integração nacional ao mesmo tempo em que permitia, em tese, uma descentralização do poder, um contraponto ao poderio econômico do Sudeste. A “marcha para oeste” empreendida desde os anos 1940 se desdobraria em projetos de agropecuária, investimentos em uma nova malha rodoviária, assentamentos regionais na região amazônica objetivando desenvolver e ocupar a imensa região central.
A construção de uma nova cidade carrega consigo um ideal de “começar do zero”, Em especial quando se trata de uma nova Capital Federal. Erguer o novo centro de poder em um espaço planejado (regulado) permitiria também – a princípio, e idealmente – sua ocupação por uma população basicamente composta por pessoas envolvidas com o fazer político e a administração pública, longe do caos e das pressões populares que uma metrópole como o Rio de Janeiro trazia.
No Arquivo Nacional há extensa documentação sobre o tema, principalmente a construção de Brasília. A Agência Nacional registrou amplamente a construção nacional e sua inauguração, enquanto o Correio da Manhã acompanhou as mudanças no Rio de Janeiro, e ambos os fundos oferecem grande quantidade de material iconográfico. Alguns fundos, como José Amádio e Bernardo Fernandes de Brito, possuem jornais e revistas da época e podem ser interessantes para perceber como a mudança foi vista pela imprensa.
Paulo de Assis Ribeiro, Família Hungria Machado, Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), Fundação Brasil Central, Mário Augusto Teixeira de Freitas possuem documentação crucial para compreender todo o processo.
Referências mais antigas a uma possível transferência da Capital podem ser encontradas nos fundos Floriano Peixoto e Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Fonte:
GOUVÊA, Viviane. Adeus, Rio de Janeiro: a transferência da capital do Brasil para Brasília (artigo). Editor: Bruno Leal Pastor de Carvalho. In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/adeus-rj-transferencia-brasilia/. Publicado em: 29 de outubro de 2025. ISSN: 2674-5917.

