Já ouvimos e lemos em muitos lugares a pergunta com a qual faço a abertura deste livro. Ela nunca está sozinha. Junto com ela vem outras inquietações e dúvidas que os professores da escola básica expressam em relação à escrita literária na escola: É meu papel como professor ensinar o aluno a escrever poemas e contos? Tenho por objetivo que meu aluno se torne um escritor? Escrever textos literários não é uma questão de aptidão ou talento? Se na minha formação não tive disciplina sobre a escrita de textos literários, como vou ensinar o que eu não aprendi ou não tenho certeza de como fazer? Como conciliar essa escrita ficcional e poética com as outras tarefas de escrita da escola? Se a escrita literária é por natureza criativa, como vou corrigir e avaliar essa produção dos alunos? Os textos dos alunos devem ser publicados na forma de um livro? Os gêneros literários podem ser ensinados como os outros gêneros? Os alunos precisam seguir algum estilo ou forma específica para produzir os textos? Como fica o ensino da leitura literária em relação à escrita literária? Qual o propósito da escrita literária na escola?

Este livro responde positivamente à pergunta sobre a necessidade do ensino da escrita literária na escola. Ele também esclarece as outras questões que a acompanham, localizando as barreiras que se apresentam para a prática da escrita literária na sala de aula e o lugar que ela deve ocupar no contexto escolar. A análise que faço aqui alinha essas perguntas com reflexões sobre as razões do ensino de escrita literária e suas estratégias como parte do ensino da língua portuguesa. Além disso, destacando o lastro histórico da relação entre escrita e literatura, discuto as etapas do processo de escrita na escola, sem deixar de considerar os novos recursos da cultura digital, especialmente os desafios da inteligência artificial generativa. Por fim, apresento uma proposta de ação como exemplo da potencialidade da escrita literária na escola quando considerada como parte do letramento literário.
O objetivo que me guia nesse percurso é duplo. De um lado, desejo inverter o modo como a escrita literária é tradicionalmente percebida e ensinada na escola: em vez de tratá-la como suplemento ou excepcionalidade, proponho tomá-la como paradigma do ensino de escrita nas aulas de língua portuguesa. Por isso, em diversos momentos deste livro, as considerações apresentadas não se limitam à escrita literária, mas abrangem o ensino da escrita de forma mais ampla. De outro lado, buscamos libertar a escrita literária de uma visão estreita que a toma apenas como expressão artística, desconsiderando que é pelo manuseio dos recursos literários na escrita e na leitura que construímos nossas identidades, transformamos em palavras o vivido e inventamos novas formas de ser e estar no mundo. Em outras palavras, é pela experiência da escrita e da leitura literária que assumimos mais plenamente a posição de sujeitos de linguagem. Por isso, como enfatizo em diversas passagens, a escola não pode deixar de oferecer a experiência formativa da escrita literária que, tal como acontece com a leitura, faz parte do ensino da literatura. A escrita literária é para todos.
Este livro foi escrito a partir de inquietações próprias e de outros professores de literatura compartilhadas em cursos, palestras, rodas de conversa e oficinas de letramento literário. Em cada capítulo, procuro incorporar suas vozes que chegaram a mim na forma de perguntas, comentários e relatos de experiência em torno da escrita literária. O tom didático que busco empregar não apenas recupera essas interações, mas também expressa uma tentativa de ampliar, para além do espaço escolar e acadêmico, a defesa do ensino da escrita literária.
Finalmente, observando a composição dos capítulos, o leitor perceberá que opto por tratar das questões de publicação e autoria antes de abordar o processo de escrita propriamente dito. Essa escolha se justifica porque tais questões costumam ser supervalorizadas na escola, frequentemente em detrimento do trabalho de elaboração textual. A inversão proposital busca chamar a atenção para o ato de escrever como uma prática cotidiana, pois, embora a publicação seja relevante, não deveria ser o objetivo primeiro do ensino da escrita literária na escola. Não escapará ao leitor, ainda, o uso da palavra “escritura” como sinônimo do ato da escrita. Esse recurso visa não apenas evitar ecos e ambiguidades com o termo “escrita” (entendido como competência ou tecnologia), mas também enfatizar a necessidade de praticar concretamente a escrita literária na escola, explorando suas múltiplas possibilidades.

Não sei se é verdade que escrever um livro equivale a plantar uma árvore e ter um filho como caminho para o bem-viver ou para a eternidade, o que me parece certo é que as três ações demandam cuidados no nascimento, mas depois de desenvolvidos exigem desprendimento de quem os trouxe ao mundo. Por isso, sem pretender antecipar os desdobramentos que este livro pode provocar, esperamos que ele contribua para o diálogo que nós, professores de literatura, precisamos estabelecer com nossos alunos, colegas de outras áreas e a comunidade escolar sobre a experiência formativa da escrita literária, que é fundamental para o lugar da escrita literária na escola.
Rildo Cosson é doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi professor da Universidade Federal do Acre, Universidade Federal de Pelotas, Universidade Federal de Minas Gerais e do Programa de Pós-Graduação do Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (Cefor/CD). Atualmente, é pesquisador do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita e professor visitante da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Pela Contexto, publicou os livros Círculos de leitura e letramento literário, Letramento literário: teoria e prática, Paradigmas do ensino da literatura, Como criar círculos de leitura na sala de aula e A escrita literária na escola.

