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A era das vítimas está em crise?

Por Marcos Napolitano

Vítimas sempre existiram ao longo da história. Sempre foram mencionadas por historiadores e lembradas em monumentos, rituais cívicos, versos e hinos. Mas, entre os historiadores contemporâneos, é mais ou menos consensual que as vítimas, sobretudo as pessoas anônimasatingidas pela violência política, ganharam um novo lugar a partir da segunda metade do século XX. De personagem da história, muitas vezes esquecida ou invisibilizada nas narrativas triunfantes e heroicas sobre o passado, a vítima se tornou uma categoria central de análise histórica e de narrativas memorialísticas. Não seria exagero, a partir de então, falarmos em uma era das vítimas.

O novo lugar da vítima como personagem central da História e foco da historiografia exigiu uma outra memória e uma outra história que dessem conta do seu sofrimento, não apenas como efeito colateral, mas como epicentro da experiência histórica e política em vários contextos. A vítima deixou de ser considerada um efeito colateral, lamentável mas inevitável, da violência em nome de uma ordem política e social, de guerras civis ou de conflitos entre as nações, exigindo uma política de memória que denunciasse as violências passadas e evitasse novas violências no futuro. Portanto, a novidade após a Segunda Guerra Mundial foi o reconhecimento da vítima como “herói contemporâneo” e a imposição de uma nova memória pública e uma nova epistemologia histórica nos debates científico, cultural e político, como parte de uma reparação moral e material às violências sobre coletividades inteiras.

O novo “pacto civilizatório” emergido da miséria moral e material causada pela Segunda Guerra Mundial e pelo Holocausto, infelizmente, não impediu novos genocídios, mas forneceu novos instrumentos para reconhecê-los, condená-los, estudá-los, superá-los. Vale lembrar que nos anos 1990, após o fim da Guerra Fria, quando as elites liberais do Ocidente celebravam a “globalização” e propagavam o triunfo dos direitos humanos universais como consagração do novo pacto civilizatório, a palavra genocídio voltou às manchetes com as matanças generalizadas de civis por motivos étnicos em Ruanda e na guerra civil da Bósnia.

A era das vítimas está em crise?

Neste início de século XXI, não só o mundo assiste, estupefato e impotente, ao ressurgir de guerras que afetam sobretudo a população civil em lugares como Gaza e Ucrânia, como também experimenta uma grande crise dos valores que marcaram o pacto civilizatório baseado na busca por democracia, direitos humanos e equidade social. A ascensão de governos autoritários e extremistas, mesmo em países com democracias supostamente consolidadas, veio acompanhada por discursos ultranacionalistas, supremacistas, racistas, demofóbicos e imperialistas que pareciam ter sido superados. No caso brasileiro, nosso grande desafio é defender a democracia política e a inclusão social e racial, igualmente ameaçadas por extremismos e autoritarismos com grande apelo popular. Uma etapa desta luta coletiva pela democracia no Brasil é compreender criticamente e superar o legado das violências colonial, escravocrata e política, muitas vezes normalizadas na nossa memória social.

O livro Memória e violência não tem a pretensão de analisar todas as violências massivas da história contemporânea ou equacionar todos os impasses surgidos pela crise da era das vítimas e do pacto civilizatório, sob ameaça no mundo atual. Pensado a partir de uma disciplina optativa ministrada no curso de História da Universidade de São Paulo, o livro se concentra nos eventos do século XX com grande impacto internacional que consagraram a era das vítimas, da Segunda Guerra às ditaduras militares na América Latina. Destaca o papel que o processo de “globalização liberal” do final do século teve na disseminação dessa nova perspectiva sobre as violências massivas. A partir de um diálogo com as teorias da memória e da História, tenta apontar caminhos para o historiador, o museólogo, o educador patrimonial e o professor de História lidarem com algumas questões em pauta no debate público e na sala de aula: Como a era das vítimas impactou o conhecimento histórico e a pesquisa historiográfica? Qual o papel do historiador, do professor de História, dos gestores do patrimônio histórico e do sistema escolar como um todo na formação cidadã voltada para consolidar políticas de memória pós-conflitos? Como ensinar e pesquisar História na era das vítimas, entre traumas e tabus herdados de um passado ainda sensível?

Mais do que cravar respostas inequívocas, este livro pretende ajudar a equacionar essas perguntas.


Marcos Napolitano é professor titular de História do Brasil na Universidade de São Paulo (USP) e doutor em História Social pela mesma universidade. É autor dos livros Como usar o cinema na sala de aula, Como usar a televisão na sala de aula, Cultura brasileira: utopia e massificação, 1964: história do regime militar brasileiro, História do Brasil República, História Contemporânea 2, Juventude e Contracultura e Memória e violência além de ser coautor de História na sala de aula, Fontes históricas, Novos temas nas aulas de História e Novos combates pela História (todos pela Contexto).

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